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Numa época em que a natureza é tomada de assalto pela humanidade e os animais selvagens penetram nas nossas cidades – registamos com frequência esse tipo de ocorrências nos telejornais – os espaços verdes citadinos ganham uma relevância enorme. Esta interpenetração de mundos que deviam estar separados e o ecocídio perpetrado contra a natureza são os grandes responsáveis tanto pelo aparecimento de epidemias (a origem daquela que vivemos hoje parece ter que ver com o facto de termos invadido certos espaços selvagens) como pelas dramáticas alterações climáticas qualquer cidadão mediano já consegue seguir a olho nu.

Perante este contexto, a pertinência do estudo das sinergias entre espaço humano e espaço selvagem é crescente, ganhando especial peso o estudo dos espaços verdes urbanos, não só como locais de preservação da biodiversidade e da vida selvagem, mas também como territórios cruciais para as sociedades humanas. Há muito que se verifica que o acesso à verdura, à natureza, é essencial tanto para o nosso bem-estar psíquico como para o equilíbrio social das comunidades onde nos inserimos. Sabe-se que o não acesso a espaços verdes urbanos é um dos principais vetores da desigualdade social. Afinal quais são as classes sociais que vivem perto do Bois de Boulogne? Ou quantos espaços verdes existem nos bairros sociais compostos de dezenas de torres mais ou menos decrépitas?

Todos estes temas são tratados numa obra essencial lançada há uma semana pela Éditions L’Harmattan. “Faire nature en ville” é uma coletânea de textos escritos por grandes especialistas da área que leva o leitor a analisar e interpretar a natureza (ou falta dela) existente nas grandes cidades francesas, portuguesas e brasileiras.

Dirigida por quatro investigadores e professores da Universidade de Tours – José Serrano, Jean-Paul Carrière, Francesca Di Pietro, Abdelilah Hamdouch e Amélie Robert -, esta obra analisa, de uma maneira crítica, o papel dos espaços verdes residenciais e públicos, a importância dos cursos de água que atravessam as cidades (muitos deles encontram-se encanados, o que altera o próprio microclima de uma cidade) ou dos espaços agrícolas urbanos, sob a forma, por exemplo, de hortas comunitárias.

Num período pandémico marcado por um regresso – se efémero ou permanente logo se verá – a um certo tipo de localismo, de gosto pela produção e produtores de proximidade e de uma redescoberta da terra e da natureza, esta coletânea não se cansa de enfatizar que a natureza é uma necessidade vital para o ser humano e que a sua preservação e recuperação são essenciais para o progresso individual e social de cada um de nós. Destruir a natureza ou abdicarmos dela nas nossas cidades é, segundo o alerta deixado por estes especialistas, um ato de suicídio coletivo.

 

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