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António Manuel Marques da Costa é o candidato do partido Aliança pelo círculo eleitoral da Europa, nestas eleições Legislativas.

Nasceu na vila de Caldas das Taipas, no concelho de Guimarães, e agora mora no Mónaco onde é motorista de carros de luxo.

 

Para o conhecermos melhor, qual foi o seu percurso de vida?

Tive um percurso escolar até ao 11° ano, onde passei também por um colégio interno em Fátima, onde estudei dois anos. Tive atividades ligadas ao mundo do espetáculo, trabalhei como disc-jockey numa rádio e também fui disc-jockey durante cerca de 20 anos em várias casas do Norte, desde o Penha Club ao Palácio Dona Chica, passando pelo Pedra do Couto. Depois abandonei a vida da noite e dediquei-me à vida de comercial, onde trabalhei ligado à venda de materiais de construção e nos anos 90 especializando-me mais propriamente em energias renováveis. Continuei a trabalhar como independente, por minha conta – porque trabalhando a recibo, trabalhamos por nossa conta e risco – comecei a aperceber-me, no início dos anos 2000, que as coisas não estavam a correr bem. Tinha clientes, excelentes clientes, que consumiam muito material, e houve um decréscimo da construção, começou-se a notar uma dificuldade nos pagamentos desses clientes – que eram clientes e são pessoas sérias, ainda hoje tenho um bom relacionamento com eles – mas notei a dificuldade que eles tinham. Isto era um sinal da crise que se estava a aproximar-se e então aconteceu que numa altura um amigo que eu tinha ajudado nos anos 90, também em termos profissionais, e que se tinha deslocado aqui para o sul de França para trabalhar no Mónaco, encontrei-o em final de 2007 e também ele me ajudou, retribuindo um pouco aquilo que eu fiz por ele nos anos 90. Convidou-me para vir para aqui e eu vim. Porque a crise lá em baixo, em 2007-2008, embora ela não fosse claramente anunciada, era bastante evidente para aquelas pessoas principalmente que estavam no terreno e que estavam em contacto com os negócios. Portanto eu aproveitei a oportunidade e desloquei-me aqui para o Mónaco onde fui acolhido por esse meu grande amigo. Ainda hoje é um grande amigo de longa data. E assim foi. E ao chegar aqui ao Mónaco, comecei a trabalhar naquilo que apareceu com muito orgulho. Passei pelas obras, até ir ajudar a descarregar as malas dos passageiros dos navios de cruzeiro que param aqui no Mónaco visto que eu também falo várias línguas. Foi uma boa oportunidade para começar a contactar com toda essa gente, conhecer um mundo diferente, fui evoluindo, nunca disse que não a uma hora de trabalho fosse em que área fosse. Limpei, carreguei, descarreguei, fiz muita coisa, até que me surgiu a oportunidade um dia tirar a licença emitida pelo Governo Monegasco para ser condutor de carros de luxo, de limousines, no Mónaco. E também fazer de guia turístico que é a minha atividade atual.

Já era militante de algum partido político em Portugal?

Não. Nunca fui militante de nenhum partido, embora tivesse a minha simpatia por um partido no qual eu em geral votei. Pontualmente não votei por esse partido, votei nulo ou em branco, mas fui sempre à mesa de voto. No entanto nunca fui militante de nenhum partido.

Como lhe surgiu então este convite para ser candidato a Deputado?

Surgiu depois de eu me ter inscrito como militante no Aliança. Foi uma mera coincidência e uma enorme surpresa, porque eu nunca estive diretamente ligado à política. Apenas comentava nas redes sociais. Um dia fui abordado no Messenger por Pedro Santana Lopes. Eu estava aqui no centro de Menton, perto do sítio onde moro, estava a tirar umas fotografias à cidade velha de Menton, e recebi uma mensagem de Pedro Santana Lopes, porque eu estava a editar umas fotografias, e ele disse-me que era um local muito bonito. Eu vi o nome e perguntei: «É o Pedro Santana Lopes, ex-Primeiro-Ministro e tal…», e ele disse-me «Sim, sou eu». Então fomos desenvolvendo conversa e um dia o Pedro Santana Lopes ligou-me e perguntou-me se eventualmente eu estaria disponível para ser candidato a Deputado. Eu respondi que para mim era uma surpresa porque nunca fui um político, nunca pensei passar pela política ativa, mas depois de refletir disse-lhe que sim, que estaria disponível, dentro das minhas limitações. Disse-lhe que não sou um político profissional, que tenho a minha atividade profissional, que tenho uma família, que eu e a minha mulher somos o garante da manutenção da nossa família… mas aceitei a proposta que ele me fez. Foi precisamente uma coincidência, não foi nada programado, não pedi nada a ninguém (sorrisos), foi mesmo assim, foi uma coisa espontânea.

 

E depois, como constituiu uma lista com os candidatos?

De início o Doutor Pedro Santana Lopes pediu-me para ver se eu, como cabeça de lista, podia sugerir os restantes elementos para completar a lista. Pediu-me que fosse dividida entre homens e mulheres. Eu ainda tentei com duas ou três pessoas que eu conheço, que são emigrantes na Suíça, no Luxemburgo e na Inglaterra. Tentei conversar com eles, falar com eles, expus, propus, mas são pessoas que não estavam disponíveis, são pessoas que não têm este ‘feeling’ para a comunicação, para a política, para darem a cara. Gostam, interessam-se, são pessoas ativas na sua cidadania, mas não estavam disponíveis. Então foi Pedro Santana Lopes que me sugeriu a Sandra Costa, a Sandra Marques e o Fernando Cordeiro. Falando um pouco com eles, parecem pessoas de bom senso, equilibradas. A Sandra Marques já foi emigrante na Alemanha, por exemplo, portanto tem experiência do que é ser trabalhador português no estrangeiro e eu achei que os três outros elementos poderiam estar à altura para me poder acompanhar naquilo que são as minhas ideias.

 

Que assunto principal quer trazer para esta campanha?

Os assuntos principais são vários, mas há uma base, como por exemplo os Consulados e as suas antenas. Por experiência própria e pelo que me dizem as pessoas, verificamos que o número de Consulados e de filiais nos vários países onde estão presentes portugueses, são em número muito reduzido. Eu sei que melhoraram ultimamente, nestes últimos dois, três anos. Aqui em Nice abriu ultimamente um Consulado Honorário, o que eu aplaudo sinceramente. Temos de aplaudir quando as pessoas fazem alguma coisa de positivo. Eu agora ganhei tempo e dinheiro porque já não preciso de perder um dia a ir daqui a Marseille. Agora tenho serviços consulares aqui em Nice, a 30 quilómetros, mas o problema que se põe aqui é que nós continuamos à espera um mês, dois meses, três meses, para uma pequena consulta, para fazer um Bilhete de Identidade, e o atendimento é tão restrito, tanto em número de pessoas que nos estão a atender, como também nos assuntos que precisamos de resolver…

Quando diz que há três meses de espera, refere-se ao Consulado de Marseille ou à antena de Nice?

Aqui em Nice ultimamente as coisas têm melhorado. No meu último pedido que fiz para ser atendido, atingia quase os dois meses, cerca de um mês e meio, um mês e três semanas. Já andou pior, nesta altura em que eu liguei para lá o prazo era sensivelmente esse. Eu sei de casos, porque me contam, de pessoas que estão noutras zonas, e eu falo particularmente de França onde estou e tenho melhor conhecimento do terreno, onde as demoras são maiores. E julgo que atingirão os dois meses, os dois meses e meio, já me falaram de três meses, mas obviamente não tenho a prova disso. Mas não ficaria admirado se assim fosse…

 

E qual é a solução? Que solução propõe o Aliança?

A solução é o Estado central português reconhecer finalmente a importância económica que os emigrantes têm, o seu peso na economia nacional, nos dinheiros que são depositados nos bancos portugueses, na economia que os emigrantes conseguem fazer mexer lá em baixo quando vão construir as suas casas, quando vão investir na compra de imobiliário e tudo o mais. Verem o peso que nós temos e dar uma resposta à altura da nossa importância económica dentro de Portugal, que é qualquer coisa que até hoje não tem sido tido em conta, não tem sido considerado absolutamente. E nunca vi nenhum representante dos Portugueses, estes dois últimos que temos na Europa andam há 24, 28 anos, a defenderem o facto dos emigrantes – ou trabalhadores portugueses na Europa, porque há pessoas que não gostam da palavra emigrante e eu até compreendo – a defenderam o peso que eles têm em termos económicos dentro do nosso país, para que dentro do nosso país, o Estado central lhes dê uma resposta à altura daquilo que eles efetivamente merecem. É o caso dos Consulados e é o caso de todos os outros assuntos. Aquilo que eu proponho muito sinceramente é que na luta por este assunto dos Consulados, e também de todos os outros, se deve evidenciar perante o Estado central, perante o Governo, na Assembleia da República, o peso económico que os emigrantes têm na nossa economia, no equilíbrio das nossas contas públicas e no dinheirinho que eles poem nos bancos ao dispor dos mesmos para poderem também nutrir a economia lá em baixo, sem que seja necessário recorrer a tanto crédito internacional para financiar a economia. Nós também financiamos a economia portuguesa. Tudo isto tem que ser levado em conta, isto é uma arma que os trabalhadores portugueses no estrangeiro têm na mão, e não têm a noção disso, porque no dia em que os Portugueses verificarem que na verdade eles são desprezados pelo Estado português, e começarem a virar costas – muitos já o estão a fazer, a venderem o património que têm em Portugal devido aos altos impostos a que estão sujeitos e que já começa a não compensar – quando começarem a deixar de enviar remessas, a deixar de participar na economia… Quando os Portugueses tiverem a noção do peso que eles têm, pode ser que utilizando esta arma, seja uma forma, a única e a mais forte, de chamar a atenção do Estado central para que este resolva os problemas que têm para resolver e são vários, não é só a rede de Consulados.

 

Sentiu sensibilidade do Presidente do Partido para estas questões?

Pedro Santana Lopes é uma pessoa que ao longo de mais de 40 anos na política tem demonstrado muita, muita sensibilidade em relação a tudo. Que o digam por exemplo as pessoas que com ele estiveram ligadas, quando ele foi Ministro da Cultura em Portugal. Que o digam os atores, os realizadores, os diretores de teatros, de cinemas, de tudo. Que o digam as pessoas da Figueira da Foz, as pessoas que à volta dele estiveram em Lisboa, quando lhe travaram uma guerra injusta, quando bloquearam completamente a sua governação. E que inclusive lhe tentaram travar a obra do túnel do Marquês. Sem essa obra hoje, Lisboa seria um caos. E os que impediram de completar a obra do Parque Mayer, onde ainda hoje os artistas andam com uma mão à frente e outra atrás. Ele queria desenvolver toda a parte de teatros, de cinemas, do casino, que tanto foi criticado… como se o casino fosse um inferno. Agora imagine que ele tinha completado esse projeto e Lisboa, com o nível turístico que nós temos, imagine o quanto Portugal e a nossa economia não ganhariam com aquele projeto que ele pretendia para o Parque Mayer, para além de libertar os atores e toda a gente da vida artística, desta forma de viver com uma mão à frente e outra mão atrás, sempre pedintes de joelhos perante o Estado. Pedro Santana Lopes sempre foi uma pessoa com um percurso limpo. Em relação a isso não há absolutamente ninguém que lhe aponte nada, e foi sempre uma pessoa com muito bom senso, ele demonstrou sempre muita sensibilidade em relação a estes assuntos. Já falei pontualmente com ele acerca disto e ele está completamente de acordo em relação a esta situação que eu lhe expus, sobre os argumentos que nós aqui – eu digo nós porque eu também sou um trabalhador português no estrangeiro – devemos usar. Porque não devemos estar com paninhos quentes e falinhas mansas, porque já lá vão muitos anos, e se nós continuarmos com falinhas mansas e paninhos quentes, vamos continuar na mesma coisa. Pedro Santana Lopes está de acordo comigo, porque estas também são as minhas ideias e esta também é uma das condições para que eu aceitasse ser candidato do Aliança.

 

Um dos grandes problemas que a Comunidade portuguesa tem é o facto de votar pouco. Por isso são politicamente invisíveis. O que pensa desta situação?

É verdade que a abstenção em Portugal continental também é muito alta, mas entre a Comunidade portuguesa no estrangeiro, é altíssima, a rondar os 80%, até talvez mais, o que é qualquer coisa que vai ser muito difícil de contrariar. Neste momento acho que foi dado um passo. Olhe aqui em casa, a minha família acabou de receber há coisa de dois, três dias, o envelope para fazer o voto, eu julgo que o meu filho votou e eu julgo que se não fosse por este sistema e se não fosse candidato, ele nunca votaria. E depois há uma dificuldade que é a maior de todas, que é a credibilidade dos políticos, que está pelas ruas da amargura. As pessoas facilmente dizem – e é difícil de as contrariar – que nós somos todos iguais. Digo nós porque agora que sou candidato, também faço parte do grupo, também faço parte daqueles que não têm credibilidade perante os olhos de muitos. O que é preciso fazer? É preciso, na verdade, com atitude no terreno – se a oportunidade for dada pelos eleitores – demonstrar que na verdade ainda há gente séria. Muitas vezes a árvore esconde-nos a floresta, mas eu conheço Deputados de vários Partidos que são pessoas sérias, que são pessoas dedicadas à causa pública. É isto que nós devemos demonstrar às pessoas, mas é com atos e com ações, porque só com palavras não vamos lá. Só demonstrando aos eleitores com atos, que nós somos pessoas que nos interessamos pelos seus problemas é a única forma de retirar muita gente da abstenção. Depois há o sistema de votação. Neste momento foi dado um passo, como eu disse, com os envelopes que recebemos, com o boletim de voto para preencher, já é um bom passo. Eu sou um defensor de um sistema mais avançado. O homem já foi à lua nos anos 60, nós hoje em dia temos todos um telemóvel, todos sabemos – ou quase todos, e os que não sabem têm um filho que sabe, um neto ou um vizinho – mexer em novas tecnologias, e eu julgo que o sistema do voto eletrónico seria qualquer coisa que poderia facilitar o acesso ao voto. Porque como eu disse, há muita gente que não acredita nos políticos, mas há muita muita gente também que tem dificuldades em se deslocar aos lugares próprios de voto devido à falta de rede consular suficiente. Gostavam de votar mas também não votam. Se facilitássemos a formar de votar, pelo voto eletrónico, acho que poderíamos diminuir em muito a abstenção.

 

Que outros assuntos preocupam a sua candidatura para além dos serviços consulares e da participação cívica?

Há sempre assuntos que preocupam. Vou vendo por aqui, nas Comunidades à minha volta, porque eu frequento os comércios, eu vou também aos encontros festivos e há coisas que na verdade eu acompanho. Acho, na verdade, que o ensino da língua portuguesa, onde o Estado central tem-se desinvestido de forma vertiginosa, é algo de muitíssimo importante e que é necessário inverter. Tenho a certeza absoluta que temos pessoas em Portugal disponíveis, ou até no estrangeiro, com formação para poderem dar aulas de português. As associações podiam ter um papel importante nisso, fazendo a ligação com os Consulados ou com o Estado português, com o Ministério da educação, por exemplo, para aqueles que estão longe dos Consulados. Acho que a língua portuguesa é fundamental para nós não perdermos este elo cultural com o nosso país. Eu aprendi desde pequeno algo ao qual ainda hoje dou muito valor: se nós não soubermos de onde vimos, dificilmente saberemos para onde vamos! E a nossa identidade, embora não de forma radical – porque também isso é outro assunto – acho que a devemos preservar, e acho que isso é muito importante para a formação da personalidade daqueles que hoje são os mais jovens e que serão os homens de amanhã. Portanto a língua portuguesa, acho que é um aspeto importantíssimo a recuperar nas Comunidades com a participação do Estado português. Eu sei que tudo isto são despesas para o Estado português. Tem que investir, trazer um professor, automaticamente ele ganha dinheiro, tem de ter um alojamento, tem isto e aquilo, eu sei disso. Mas, como já referi anteriormente, o nosso peso económico na economia portuguesa, justifica perfeitamente todos estes investimentos que são necessários e que os Portugueses – que não somos de segunda por estarmos na Europa – precisamos como de pão para a boca. O caso da língua portuguesa é um dos aspetos. Sugiro duas disciplinas que me marcaram quando eu era muito jovem: as aulas de educação cívica e de música. Trata-se da autoestima de cada um e se nós recebermos a educação que recebemos em casa dos nossos pais, este extra pode ser uma motivação positiva para a formação da nossa personalidade. Eu tive aulas de educação cívica nos anos 70, nos anos 73-74, quando estive no colégio interno. A outra formação é a musical. Como diz o nosso Presidente Pedro Santana Lopes, e com toda a razão, embora sejam pequenos aspetos aos quais se calhar a maior parte das pessoas não dará muita importância, mas os pais deveriam dar. Por exemplo, uma criança que começa a ter aulas de educação musical muito cedo, vai desenvolver a sua personalidade pelo lado positivo, vai estruturar e exercitar o seu cérebro, que será depois aplicado em todas as matérias. Quando ela vai para a escola, em todas as matérias, seja na matemática, seja na física, seja nas línguas, a música é um exercício extraordinário numa criança de tenra idade que começa a tocar um instrumento e a saber ler música. A língua portuguesa, a educação cívica e a educação musical, eu acho que eram três áreas em que nós, Portugueses a trabalhar no estrangeiro, deveríamos dedicar. Acho que o Estado devia dedicar-se a nós nestas áreas, propondo ou pondo ao dispor estas três disciplinas. Acho que era muito, muito importante.

A formação cívica e musical vamos deixar para a França, no entanto falou da importância do Ensino da língua portuguesa. Mas porque considera que devia ser lecionada nas associações e não nas escolas?

Porque por exemplo o meu filho foi obrigado a escolher há pouco tempo e não havia opção do português: havia opção do espanhol. No colégio onde ele está dão-lhe a opção do inglês, do espanhol ou do italiano, mas não teve opção do português…

 

Mas não é função do poder político português de motivar a França a abrir mais aulas de português nas escolas francesas?

Eu acho que nós devíamos encurtar o caminho…

 

Encurtar o caminho é as crianças aprenderam alemão na escola e português nas associações?

Sim. Porque não? E repare na seguinte vantagem: se eu aprender francês na escola portuguesa, vou aprender francês dentro de um determinado nível. Mas se eu tiver em Portugal uma associação francesa onde eu entro da porta para dentro e onde se fale francês, vou aprender um francês a um nível completamente diferente. Eu digo-lhe isto por experiência própria e julgo que toda a gente estará de acordo, porque se eu for daqui para a Alemanha e não falo alemão – só sei contar até dez e dizer umas coisinhas – tenho a certeza absoluta que se lá passar um mês, saio de lá com muito mais alemão do que se for para uma escola aprender alemão durante um ano. E portanto isto mesmo aplica-se a uma associação portuguesa com um professor que ensine o português, onde as crianças estão no meio de portugueses, onde lhe fale em português. Eu tenho a certeza absoluta que ela tem uma aprendizagem muito mais rápida do que nas aulas num colégio francês. Entretanto eu digo isto porque o resultado é melhor e o caminho é mais curto, porque se nós continuarmos nesta luta de tentarmos impor a língua portuguesa no ensino francês, e eu acho que vai passar mais um século e vamos andar aqui nesta conversa. Eu acho que devemos encurtar o caminho e arranjar outras soluções, até porque há pessoas que são voluntárias.

 

Vamos então falar de associações. O que conhece do movimento associativo português na Europa? Acha que o Estado devia apoiar?

Quando me falam que o Estado deve intrometer-se nisto ou naquilo, eu fico logo de pé atrás. Muito sinceramente acho que onde o Estado mete a mão, demasiado, em termos diretos, não é bom. Eu acho que as associações, quando são criadas, têm uma base social e essa base social também as pode sustentar financeiramente. Se as pessoas que suportam a associação têm um determinado número de serviços, mas, entretanto, gostavam de ter outros, quem dirige essa associação deve apelar aos seus associados para uma maior contribuição. Porque vamos estar a chatear o Estado para ajudar financeiramente uma associação? Isso nem é bom, nem é justo, acho eu. Para quem paga impostos, não acho que seja correto andar aqui neste sistema a pagar para tudo. Depois há outro perigo aqui, que é a influência política que o Governo pode ter nas associações. Nós em Portugal temos muito esta arte das mãozinhas que andam por todo o lado, não é? Basta olhar para o Governo que temos atualmente e constatar que é o primo, é a prima, é a filha, é o filho, é a esposa, é o gato, é o cão, é o periquito, é toda a gente. Concluindo, o Estado deve estar o mais longe possível, agora o Estado deve estar sim relacionado com os Consulados e os Consulados é que devem dar o seu apoio às associações, ao ensino, para pagar os professores. Pode ser também colocar um computador na associação com alguém que saiba por exemplo resolver certos assuntos aos quais as pessoas têm dificuldades de resolver diretamente, aí sim. Eu não concordo que o Estado ajude diretamente as associações. Acho que o associativismo por si mesmo, consegue resolver muitas das situações. Estou a falar daquelas associações que nós conhecemos em geral, que são aquelas que fazem as festas, com folclore, que nos servem o Vinho Verde e o frango no churrasco. Mas há outro tipo de associações que estão escondidas, são menos visíveis, e que provavelmente são muito poucas na Europa – eu conheço um caso na Suíça, onde uma associação sim, uma associação que é única, que olha para mais de 140 presos portugueses que estão na Suíça, e é a única associação que dá apoio a mulheres e crianças que sofrem de violência doméstica. A associação tem enormes dificuldades. Essas associações sim, precisam, por exemplo, de apoio jurídico. As associações que ajudam pessoas em enormes dificuldades, acho que o Estado deveria dar um apoio financeiro e até em termos. Mas o resto das associações, aquelas que eu vou vendo por aqui, é muito folclore, muito frango assado, e palco para políticos. É aquilo que eu vejo. E mais: com um problema porque continuam a divulgar o Portugal da salsicha Nobre e do vinho Mateus, e do folclore. Ora, a cultura portuguesa é muito, mas muito mais do que isso. E nós, em termos de gastronomia, em termos de vinhos, em termos de indústria, de tudo, somos muito mais do que a salsicha Nobre e o vinho Mateus.

 

Não está a contradizer-se? Por um lado, está a dizer-me que as associações não valorizam o Portugal atual, ora, para o fazer, elas necessitariam de ser ajudadas, não era?

Eu não acho. Estou aqui há 11 anos e agora moro aqui a 300 metros de onde morava, precisamente em frente a um local onde os Portugueses se juntam em junho para a Festa dos Portugueses. Todos os anos é a mesma coisa, vêm os grupos folclóricos, serve-se o Vinho Verde, o frango assado e uma missa ao domingo de manhã, e não saímos disto. A pessoa que optou por este sistema, deveria optar por outro. Não vejo aqui necessidade de haver a intervenção do Estado. O Estado deveria intervir é nos outros serviços, os professores para a língua portuguesa, a educação cívica e a educação musical, por exemplo. Aí sim.

Como avalia o trabalho dos dois Deputados eleitos pela emigração?

Eu seria injusto se lhe dissesse que estive a ver ao pormenor as ações dos Deputados. Eu vejo de uma forma geral, conheço algumas ações, como eu já lhe disse, aplaudo o facto de terem melhorado nestes últimos três anos ligeiramente, mas muito insuficientemente, a rede consular, como dei o exemplo aqui de Nice.

 

Isso foi iniciativa do Governo, não da Assembleia da República…

Mas eu imagino que os deputados devem ter feito a sua ação para que o Executivo fizesse o trabalho ou nem isso fizeram? Espero bem que tenha sido um alerta da parte deles. Eu pelo menos penso assim. Se isso não fizeram, vou lhe dizer, muito sinceramente, não conheço nada praticamente daquilo que tenham feito. Eu digo isso porque ainda há bocado falei da associação que eu conheço na Suíça, que trata daqueles mais necessitados, e eu posso dizer-lhe que o Estado tem dado uma ajuda Zero. Os Deputados, com quem esse Presidente da Associação tentou falar, simplesmente viram as costas. É, portanto, o que posso dizer. Um parece que está lá há 24 anos, o outro há 28, e eu sinceramente não conheço nada de particular, a não ser as suas presenças em palco quando as associações promovem as festas de folclore para os Portugueses. De resto não conheço mais nada muito sinceramente.

 

Diga-nos agora, como está a organizar a sua campanha?

Estou a organizá-la um bocadinho em cima do joelho, verdade seja dita. Como já disse, eu não sou político profissional. Aceitei o convite de Pedro Santana Lopes, que muito me honrou, e desde o início ficou estabelecido que eu ia fazer o meu possível. Tenho estado nas redes sociais, tentando divulgar o mais possível o nosso programa eleitoral. Porque eu tenho uma vida profissional muito ocupada e com horários dos quais são todos os dias uma surpresa. Eu não começo às x horas e saio às x horas, portanto tento fazer, dentro disso, o melhor possível, nas redes sociais. De resto estou também aqui em contacto com as pessoas da minha região, na zona do Mónaco, que é a zona onde eu vivo, aliás vivo mais propriamente em Roquebrune-Cap-Martin. Em Menton vou ao comércio, como sempre fui, mas desta vez vou para contactar as pessoas, falar com elas, distribuir uns flyers, expor-lhes o que é o Aliança. Se por ventura for em viagem – porque viajo muito pelo estrangeiro e pela França, com clientes – levo sempre comigo a pastinha com os meus flyers, e vou procurando saber onde há uma associação, onde há um ponto de encontro dos Portugueses, um restaurante, um café, uma mercearia, onde eu posso deixar eventualmente alguns flyers, onde possa encontrar alguns Portugueses e tentar falar com eles. Estou limitado a isto porque não tenho nenhuma máquina de Partido por detrás de mim, para uma campanha eleitoral como eu gostaria de fazer. Mas esta é apenas a minha primeira experiência.

 

 

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