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“Les Peuples de l’Orient au milieu du XVIe siècle” – um tratado sobre a diversidade humana quinhentista

Cultura

 

Foi publicado em França, pela Éditions Chandeigne, uma das mais importantes fontes portuguesas para o conhecimento dos povos do Índico e do Oriente no século XVI. Uma edição comentada por Sanjay Subrahmanyam, um dos grandes historiadores do nosso tempo.

O Códice Casanatense (ou Codex Casanatense 1889), que se encontra na Biblioteca Casanatense em Roma, foi encomendado por Portugueses de Goa nas primeiras décadas de quinhentos. Esta bela edição francesa é composta por mais de 150 pinturas de grande qualidade. Já a origem do seu autor é ainda debatida, embora exista uma forte possibilidade de se tratar de um artista de origem indiana, talvez mestiça. Este códice é a principal fonte histórica europeia a oferecer uma representação dos povos africanos e orientais (África Oriental, Arábia, Pérsia, Afeganistão, Índia, Ceilão, Malásia, China e Molucas), mas também da fauna, da flora e de algumas tradições religiosas. Tudo povos e realidades com quem os Portugueses entraram em contacto nas décadas anteriores durante a conquista do Índico.

A ausência de referências ao Japão, com quem os Portugueses entraram em contacto pela primeira vez em 1541, parece revelar que o Códice é anterior a essa data.

Já o autor dos comentários à obra, Sanjay Subrahmanyam, foi responsável por uma mudança de paradigma na historiografia mundial. Nascido em Nova Deli, em 1961, Subrahmanyam é a figura mais representativa da chamada História Conectada, que, partindo da História Global, pretende servir de contra-narrativa a uma história excessivamente eurocêntrica que, demasiadas vezes, não levava em consideração as experiências históricas radicalmente diferentes dos outros povos. Ora esse etnocentrismo europeu, herdeiro do colonialismo, é por demais visível na historiografia portuguesa tradicional que olha para a expansão marítima dos séculos XV-XVI através do prisma europeu e lusitano. O uso, ainda hoje, do termo “descobrimentos” é a melhor prova desse anacronismo.

É por essa razão que a publicação de “Les Peuples de l’Orient au milieu du XVIe siècle”, comentada por Subrahmanyam, é uma excelente novidade que nos pode ajudar a compreender, de acordo com os padrões modernos da História Conectada, as complexas teias de relações que os povos, vivendo em diferentes continentes, criaram entre si desde que a viagem de Vasco da Gama, em 1498, criou a globalização moderna.

Sanjay Subrahmanyam, reputado especialista dos séculos XV, XVI e XVII, nomeadamente sobre as relações luso-indianas, já publicou várias obras publicadas em português e em francês: “Impérios em Concorrência, Histórias Conectadas nos Séculos XVI e XVII”, “O Império Asiático Português 1500-1700, Uma História Política e Económica”, “A carreira e a lenda de Vasco da Gama” ou “Comércio e Conflito: a presença portuguesa no Golfo de Bengala (1500-1700)”.

“Les Peuples de l’Orient au milieu du XVIe siècle” é uma obra indispensável para quem se interessa pelo encontro de culturas e povos até então separados por uma inultrapassável geografia, obstáculo que a expansão portuguesa, a maior parte das vezes à força de tiros de canhão, eliminou, entrelaçando assim os nossos respetivos destinos.

 

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