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Livros: “Tupinilândia” de Samir Machado de Machado – Da nostalgia do passado à paranoia coletiva

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É raro, mas às vezes surgem livros absolutamente surpreendentes, cortantes, pertinentes, capazes de, através da literatura, conduzir o leitor a uma profunda reflexão sobre o mundo onde vivemos – nomeadamente os perigos relativos ao ressurgir de uma ditadura militar no Brasil – sem nunca esquecer que (por muito que doa a certos editores e escritores) leitura também tem de rimar com entretenimento. E Samir Machado de Machado (Porto Alegre, 1981) oferece-nos tudo isso em “Tupinilândia”, romance publicado em 2018 no Brasil (Editora Todavia) e que a Éditions Métaillié lançou há pouco em França com o mesmo título e com a tradução de Hubert Tézenas.

“Tupinilândia” cruza vários géneros, desde o distópico ao histórico, passando pelo pop e pelo registo de aventura. Como diz (e com razão: o que também é raro!) o marketing editorial estamos ali entre um Orwell e um Parque Jurássico tornado blockbuster; entre realidade alternativa e parque de diversões. E Tupinilândia é exatamente isso: um parque de diversões que se transformou em História alternativa.

Em 1985, ano que marca o colapso de uma ditadura militar apodrecida, começa a nascer no estado do Pará, em plena Amazónia – sem qualquer aglomerado populacional num raio de dezenas de quilómetros, totalmente isolado do mundo por um deserto verde – um projeto louco: um parque de diversões que visa enaltecer a cultura brasileira e o regresso da democracia. Carrosséis, dinossauros em tamanho real, montanhas russas imensas… Fruto dos sonhos do milionário João Amadeus Flynguer, fã de Walt Disney (personalidade que o seu pai, um imigrante estadunidense, havia acolhido nos anos 1920), Tupinilândia deverá ser um lugar mágico, capaz de fazer a felicidade de miúdos e graúdos.

Mas…

Poucos dias antes da abertura do parque ao público, um grupo de militares de inspiração neonazi invade e conquista o parque, fazendo centenas de reféns.

Tupinilândia cai no esquecimento e torna-se um mito. E é atrás desse mito, trinta anos depois, que o arqueólogo Artur Flinguer parte para o território outrora ocupado pela Tupinilândia com o intuito de estudar as suas ruínas. Porém o que lá encontra é surpreendente. No antigo parque de diversões, entretanto engolido pela natureza amazónica, a equipa de arqueólogos encontra os militares neonazis e os seus descendentes. Um grupo de gente que, devido ao isolacionismo digno de qualquer tribo indígena, congelou a sua conceção do mundo nos anos 1980 e que mantém o seu poder graças à mentira e à manipulação, inventando um inimigo que domina o mundo inteiro: os comunistas. Uma viagem à mais pura cosmogonia criada por trumpistas e bolsonoristas.

Um livro que agradará tanto aos nostálgicos dos anos 1980 como aos amantes de distopias, um dos poucos géneros literários capaz de fazer soar a sineta de alarme para os perigos inerentes a certos caminhos que a humanidade, estranhamente imune aos ensinamentos da História, insiste em tomar.

 

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