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A Ministra da Cultura, Graça Fonseca, numa nota de pesar pela morte, ontem, do fotógrafo Gérald Bloncourt, aos 92 anos, afirma que era “dono de uma sensibilidade que incomodava pela franqueza” e realçou a sua ligação a Portugal.

“Fotógrafo comprometido, militante humanista e poeta do quotidiano, dono de uma sensibilidade que incomodava pela franqueza, Bloncourt acompanhou, entre 1954 e 1974, as gerações de Portugueses que fugiam de um país em ditadura”, lê-se na nota ministerial.

“O percurso do fotógrafo Gérald Bloncourt está ligado ao imaginário coletivo da imigração portuguesa em França. Foi através do seu olhar que pudemos, todos, conhecer e admitir as duras condições de vida de gerações que a ditadura obrigou a partir e que procuravam na periferia parisiense melhores condições de vida”, afirma a Ministra.

Segundo Graça Fonseca, foi “através de um gesto marcado pela objetividade, como é o dos grandes fotógrafos, que Gérald Bloncourt contou a história silenciada, envergonhada e escondida de um país fechado sobre si próprio”.

“Com as célebres fotografias do ‘bidonville’ de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, e dos bairros da cintura industrial da capital francesa, Bloncourt assinou um capítulo da história de Portugal”, sublinha Graça Fonseca.

“A relação de Gérald Bloncourt com Portugal acompanhou não só os ‘bidonville’ portugueses, como também o percurso de imigração, a salto, e o Portugal pré e pós-Revolução”, realça.

Gérald Bloncourt foi agraciado em 2016 com a Ordem do Infante Dom Henrique pelo Presidente da República, e as suas fotografias foram objeto de várias exposições, nomeadamente, na Cité Nationale de l’Histoire de l’Immigration, em Paris, no Museu das Migrações e das Comunidades, em Fafe, no Minho, ou no Museu-Coleção Berardo, em Lisboa.

Gérald Bloncourt nasceu em 1926, no Haiti, de onde foi expulso no final da década de 1940 por razões políticas e passou a residir em Paris, onde iniciou uma carreira de fotojornalista que o levou ao encontro dos portugueses nos anos 1960 nos bairros de lata dos subúrbios da capital francesa.

“Era uma forma de escravatura moderna. Havia lama no inverno, era frio. Eram barracas feitas com tábuas, bocados de chapa. Era uma vida difícil, muito rude. Os homens iam trabalhar para as obras, as mulheres ficavam com as crianças”, recordou, o fotógrafo numa entrevista à Lusa, em abril de 2015.

O primeiro “bidonville” que o repórter fotografou foi o de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, mas a abordagem não foi fácil: “Quatro Portugueses viram-me e apanharam-me. Pensavam que eu era um polícia. Prenderam-me e meteram-me lá num edifício feito de tábuas. Havia lama por fora, mas lá dentro era asseado e tínhamos de tirar os sapatos”.

Enquanto o fotógrafo aguardava, descalço, os Portugueses “foram buscar o chefe”: “Quando o chefe chegou, disse-me ‘Que estás aqui a fazer?’ Eu conhecia-o. Era um militante sindicalista da Renault que era o chefe do bairro de lata. Abraçámo-nos, bebemos uma garrafa de Porto e depois pude voltar”, lembrou.

Os relatos que ouvia nos bairros de lata levaram-no a querer descobrir Portugal e a fotografar as rotas clandestinas dos que tentavam fugir à ditadura, num percurso que ficou conhecido como “O Salto”.

O fotógrafo ofereceu um espólio de cerca de 100 imagens ao Museu da Emigração de Fafe.

 

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