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Morreu em Paris, onde vivia, com 93 anos, Jaime Lima Ribeiro, fundador do jornal Encontro das Comunidades Portuguesas, que durante muitos anos foi um jornal de referência na região parisiense. Segundo a filha, Isabelle Ribeiro, Jaime Ribeiro morreu na quarta-feira desta semana e as cerimónias fúnebres terão lugar na próxima sexta-feira, dia 8 de junho, às 14h15 na Igreja de Saint Luc, 80 rue de l’Ourcq, em Paris 19, e depois às 16h30 no Crématorium du Père Lachaise.

Quando chegou a França, em 1956, Jaime Lima Ribeiro não sabia ainda que viria a ser um dos fundadores do Partido Social Democrata PPD (atual PSD) e o fundador da Secção de Paris do Partido.

Foi ao lado de Emídio Guerreiro que Jaime Ribeiro esteve na fundação do PPD. Na altura, esteve prestes a fundar o Partido Republicano com Rui Luís Gomes «mas quando ele veio do Brasil, agarrou-se aos abraços ao Álvaro Cunhal e nós tiramos-lhe a confiança» explicou ao LusoJornal, em 2005.

«Agora tenho diploma e medalha de honra do PPD» que marca o momento que passou ao lado de Francisco Sá Carneiro e de Pinto Balsemão.

Podia ter ido bem mais longe se Sá Carneiro não tivesse sido vítima do acidente mortal. «Era um homem que tinha um projeto forte para a Emigração. Já naquela altura ele queria que os Emigrantes votassem para as eleições presidenciais».

Jaime Lima Ribeiro nasceu na freguesia de Bonfim, no Porto. O avô tinha feito a Revolução de 1910 e foi o primeiro Presidente da Junta de Freguesia do Bonfim. «Por isso, já nasci Republicano» dizia Jaime Ribeiro.

Em França, antes do 25 de Abril «éramos todos contra o regime» disse numa entrevista ao LusoJornal. «Não havia Direita, nem Esquerda».

Por isso, mesmo se Jaime Ribeiro foi fundador do PSD, sempre foi respeitado por todos os quadrantes políticos.

Na altura, convivia com os amigos num café da avenue Wagram, em Paris, onde hoje existe um MacDonald. «De um lado da avenida juntavam-se os mais revolucionários, e do outro lado, num outro café, juntavam-se os mais moderados. Mas todos lutávamos pela mesma causa. Quando algum elemento da PIDE tentava infiltrar o grupo, levava um arraial de porrada à noite, quando saísse do café…» contava com emoção.

Por vezes participou em reuniões clandestinas em Pantin. Foi aí que conheceu Mário Soares.

Logo depois de ter ajudado a fundar o PPD, Jaime Lima Ribeiro regressou a Paris para criar o Centro Popular Português Democrático, uma associação que mais não foi do que a primeira Secção do Partido fora de Portugal.

Para além de Jaime Ribeiro, foram fundadores do CPPD Rodrigo Galveias, Jorge Angelino, José Queirós da Silva, Pinho Cardetas, Joaquim Pé-Curto e José Araújo, entre outros. «É uma geração que vai desaparecendo» disse esta tarde ao LusoJornal o Deputado Carlos Gonçalves.

Jaime Lima Ribeiro foi o primeiro Emigrante no Conselho Nacional do PPD. E nas eleições legislativas de 1977 esteve prestes a ser candidato a Deputado. Mas não foi.

Guardou sempre uma ligação forte com Portugal. Considerou José Vitorino como o melhor Secretário de Estado da Emigração que Portugal teve. Dizia que «tinha uma visão muito clara da emigração».

Mas quando Carlos Gonçalves foi eleito Deputado «foi como se fosse meu filho. Fez aquilo que eu não consegui fazer. O pai dele, Almiro Gonçalves, foi meu Vice-Presidente e depois foi ele o Presidente do Centro PPD».

«A minha eleição e o meu percurso político deve-se ao trabalho iniciado por Jaime Ribeiro e todos aqueles militantes históricos que hoje praticamente já não estão cá» confirmou Carlos Gonçalves ao LusoJornal.

Jaime Ribeiro só lamentou que Carlos Gonçalves tivesse integrado o Governo de Pedro Santana Lopes. «Não deu para mostrar o que efetivamente vale» dizia a sorrir.

Até à morte, Jaime Lima Ribeiro assumia-se como sendo do PPD e não do PSD.

Quando Mário Soares concorreu pela segunda vez a Presidente da República, Jaime Ribeiro escreveu-lhe uma carta para dizer que não o apoiava. «Votei no Mário Soares contra o meu Partido, mas na segunda vez não votei» disse ao LusoJornal. «Ele nasceu em 1924 como eu e agora devia ter juízo» disse na altura.

«Arrepio-me quando ouço alguém dizer que Salazar era um homem bom. Onde é que isto irá parar?» confessou ao LusoJornal.

Em 1990, Jaime Lima Ribeiro pediu a nacionalidade francesa e aderiu ao Partido Republicano francês. Foi o primeiro português a integrar o Conselho Nacional deste Partido ao lado de Giscard d’Estaing, Jean-Pierre Raffarin e Patrick Poivre d’Arvor.

Tem correspondência trocada com «mon ami» Giscard d’Estaing, mas era um Gaulista «de gema».

Para além de dirigente partidário, Jaime Ribeiro foi também dirigente associativo e passou por cerca de 20 associações em cerca de 60 anos a viver em França.

«Sempre ajudei os Portugueses. Fui muitas vezes tradutor, gastei algum dinheiro pessoal, mas nunca pedi a ninguém que me pagasse os serviços que prestava. Disso posso estar orgulhoso».

Mas outro dos motivos de orgulho de Jaime Ribeiro foi ter criado o Jornal Encontro que dirigiu durante cerca de 30 anos.

A uma altura o jornal ainda passou a ser quinzenal, dirigido por Vítor Esteves e graças a uma associação com as equipas da Rádio Alfa. Pelo Encontro passaram muitos dos jornalistas que atualmente evoluem na Comunidade portuguesa de França. Foi último Diretor do jornal António de Morais Cardoso, antes de desaparecer completamente. O desaparecimento do jornal foi uma das maiores mágoas de Jaime Ribeiro.

Jaime Ribeiro foi um dos fundadores do Club de la Presse em Paris, onde era tratado como «um rei», como costumava dizer. Foi aí que acompanhou a preparação do projeto daquele que mais tarde viria a ser o LusoJornal. Aliás, era leitor fiel leitor do LusoJornal.

Nos últimos anos decidiu «afastar-se» da Comunidade portuguesa. Estava lúcido, mas debilitado fisicamente e preferiu não aparecer. «Já toda a gente se esqueceu de mim» disse ainda muito recentemente.

 

 

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