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Nuno Gomes Garcia conversa com Joana Pinheiro de Almeida: “Houve uma hipótese de casamento entre Catarina de Bragança e Luís XIV”

O livro da historiadora Joana Pinheiro de Almeida, traduzido para francês e publicado pela Editora Le Poisson Volant, retrata a vida da mulher portuguesa mais famosa do século XVII: Catarina de Bragança.

Princesa de Portugal e rainha de Inglaterra, filha de João IV, o Restaurador, e esposa do rei inglês Carlos II, Catarina de Bragança foi a responsável, ao que se julga, por ter levado para Inglaterra alguns dos hábitos da nobreza portuguesa que, com a passagem dos séculos, quase todos consideram agora uma tradição intrinsecamente inglesa. Além desses hábitos, o dote do casamento real incluiu as então cidades portuguesas de Tânger, em Marrocos, e de Bombaim, hoje Mumbai, a maior e a mais importante da Índia.

Mas que hábitos foram esses que Catarina levou para Londres? Falo, claro, do costume inglês de beber chá. Mas não só. Diz-se também que Catarina habituou os ingleses a comer marmelada, a fumar tabaco e até a comer com garfo. A Joana vai já dizer-nos se tudo isso é verdade ou se não passa de um mito urbano.

A vida de Catarina, contudo, não foram só rosas. Pouco popular por ser católica, ela teve um casamento infeliz: não teve filhos do rei embora ele os fosse tendo graças às suas inúmeras amantes. Enfim, ela, já viúva, lá acabou por regressar a Lisboa onde viveu uma vida pacata até à data da sua morte.

 

Joana, quando se fala de Catarina de Bragança a maioria das pessoas lembra-se logo da história de ter sido ela a levar certos hábitos para a corte inglesa. O costume de beber chá, por exemplo. Isso é verdade?

Ela popularizou o costume de beber chá. Aquilo que as pessoas julgam é que ela introduziu o chá das cinco e isso não é verdade, esse hábito foi mais tarde popularizado por outra rainha. No tempo de Dona Catarina, o chá já era conhecido em Inglaterra, afinal os ingleses também comerciavam com a Índia, por exemplo. O que não era vulgar era o seu consumo. A ligação entre o chá e Catarina de Bragança está muito relacionada com a sua chegada a Inglaterra. Ela chega indisposta após uma viagem muito longa por mar e, quando chega a Portsmouth, os médicos ingleses sugerem-lhe cerveja para acabar com a indisposição. Ela acha aquilo estranhíssimo e pede um chá. E isso ficou registado por quem lá estava e, por isso, ela ficou sempre associada ao chá.

 

Vamos então recuar um pouco e tentar enquadrar o casamento de Catarina com a época em que viveu. Este casamento enquadra-se, num contexto de guerra da Restauração contra Espanha, naquilo a que se chama diplomacia matrimonial. Pode explicar-nos?

Este casamento foi uma vitória diplomática muito grande. Portugal conseguira libertar-se de Espanha graças ao movimento de Restauração, mas D. João IV, o primeiro rei da dinastia de Bragança, não foi reconhecido nem por Espanha, obviamente, nem pela Santa Sé. O reino de Portugal estava ali no limbo entre o oficial e o não oficial. D. João IV tentou então forjar alianças diplomáticas que ajudariam a fortalecer a posição de Portugal. Tentou por várias vias, uma delas a França, até houve uma hipótese de casamento entre Dona Catarina de Bragança e Louis XIV, contudo isso não era do interesse de Luís XIV nem do cardeal Mazarin e não se concretizou. Foram portanto precisos vinte e um anos para que Portugal conseguisse uma aliança com a Inglaterra, o que foi, de facto, uma grande vitória diplomática. Já não foi concretizada por D. João IV, mas sim por Dona Luísa de Gusmão, regente durante a menoridade de D. Afonso VI. Essa aliança diplomática com a Inglaterra foi a prova de que Portugal era independente.

 

Tudo isso compensou então a perda de importantes pontos de comércio como Tânger e Bombaim, colónias que os portugueses incluíram no dote de Catarina de Bragança e que passaram a ser território da coroa inglesa? Ou não?

Pois, isso é difícil de avaliar. Não sabemos como é que a situação teria evoluído se Tânger e Bombaim tivessem continuado portuguesas. Mas pensemos não tanto nessas cidades, pensemos nos direitos de comércio, a liberdade e as garantias, o comércio livre que foi dado a Inglaterra. Isso talvez tenha sido mais importante. Zonas de comércio proibidas, no Brasil, por exemplo, que passaram a ser permitidas aos ingleses.

 

Quando ela chegou a Londres, a Inglaterra tinha acabado de sair de uma sangrenta experiência republicana e a sociedade era maioritariamente protestante. Como é que os ingleses viram a chegada de uma rainha católica educada num convento?

Ela de facto teve uma receção bastante complicada. Por um lado, estamos a falar de uma sociedade, a inglesa, que esteve reprimida durante a experiência republicana de Cromwell, nomeadamente a nobreza, e quando surge Carlos II houve um boom de tudo aquilo que eles não tinham podido fazer antes, festas, luxo…

 

Cerveja para os doentes…

Sim (risos), exato, cerveja para os doentes. A nobreza quer é isso, divertir-se. E, de repente, surge uma rainha, que não foi educada num convento, atenção…

 

É outro mito?

É outro mito associado a Catarina. Ela teve uma educação muito rígida, muito austera, estamos a falar de uma corte que está literalmente em guerra. A Guerra da Restauração só termina em 1668. Era uma corte austera, com pouco dinheiro, que ia todo para o esforço de guerra, o pai vai lutar, o irmão vai lutar… Ora tudo isso transforma a corte em algo muito pesado. A Catarina leva esse peso com ela quando chega a Inglaterra. Leva-o até nas roupas muito escuras que se usavam em Portugal, era essa a moda. Portanto, estamos a falar de uma Inglaterra que deseja algo leve e aparece-lhe então uma rainha com um ar pesado. E católica. Obviamente. Esse é talvez o problema maior. Esse problema vai-se tornando mais palpável à medida que os anos passam e Dona Catarina vai tendo abortos sucessivos até que não consegue mesmo engravidar. Percebe-se que a probabilidade de ela poder dar um herdeiro é pequena. E não havendo herdeiro, é esse o principal problema da sociedade inglesa na aceitação de Catarina, a sucessão cairia sobre o irmão de Carlos II, Jaime, que era católico. O que veio de facto a acontecer. Dona Catarina era de facto um perigo para aquela nobreza inglesa. Tínhamos também, por outro lado, a questão das amantes públicas, muito públicas, e dos filhos que rei foi tendo com elas. Ela teve de aceitar aquilo tudo. Era normal naquela corte o rei ter relações extraconjugais muito públicas. A rainha estava no mesmo sítio da amante e toda a gente sabia que ela era a amante do rei. O primeiro grande confronto entre Carlos II e Dona Catarina parte da recusa dela em nomear a grande amante do rei, a Barbara Palmer, como dama da sua câmara. Foi um enorme braço de ferro entre os dois ao ponto de o rei ter enviado grande parte do séquito que acompanhara Catarina de volta para Portugal.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

 

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