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Pois é realmente incrível mas sucedeu. Antes que tivesse tido lugar a contagem dos votos enviados pelos cidadãos portugueses no estrangeiro, optaram os governantes responsáveis numa atitude de total desrespeito, por começar a indigitar membros para o novo Governo, Primeiro Ministro incluído.

Ainda não tinha chegado o dia 16 de outubro, data marcada para a contagem citada acima, e já o Dr. António Costa tinha sido chamado a Belém para ser reinvestido no cargo que ocupou nos últimos quatro anos.

Que dizer de tal atitude, senão que retrata perfeitamente o que os governantes pensam dos Portugueses no estrangeiro, cujo valor exaltam no 10 de junho e outras datas festivas, e claro também durante campanhas eleitorais, mas que, quando chega a altura de estes poderem participar na escolha da orientação política no país de origem, ignoram, como se nada valessem, as suas vozes e a sua vontade?

O que agora sucedeu foi sinónimo de uma declaração oficial, em que tivessem dito que enfim, a maioria de votos já foi obtida, e no estrangeiro apenas votam meia-dúzia de gatos, sem peso algum em decisões finais.

Poderemos ser a proverbial meia-dúzia de gatos, mas o facto é que estamos cá e recusamos ser continuamente postos de lado!

Apesar de todas as dificuldades e constrangimentos que ficaram patentes no processo de voto no estrangeiro, havia votos em número considerável que nunca deveriam ter ficado em segundo plano, mesmo que o total de 158.252 votos recebidos tivesse ficado fortemente prejudicado pelos 35.331 que acabaram por ser anulados, devido maioritariamente ao facto de os votantes não terem inserido cópia do documento de identificação.

Seria essa cópia mesmo necessária? Os boletins de voto foram enviados por correio registado para a residência dos eleitores recenseados. Quais as possibilidades reais de que alguém, que não os citados, utilizasse o boletim? Certamente muito poucas. Então, para que complicar o processo?

Além disso muitos não receberam o boletim devido a mudança de residência, outros enviaram-no mas foi devolvido porque em vários casos os Correios não identificaram a indicação de porte pago.

A todos estes problemas há ainda a contar – ou melhor, não contar – com os Portugueses que optaram pelo voto antecipado mas que afinal acabaram por não poder votar porque nos Consulados não havia impressos suficientes para o efeito.

E, para aumentar o descalabro, o “enigma” de um envelope a reutilizar que tinha de ser desdobrado, dobrado, redobrado e colado para servir de novo como envelope para o envio do voto dentro de um sobrescrito verde que não cabia dentro do tal envelope, facto que obrigava a outro tipo de dobragem, com o resultado de que as partes a humeder para reconstruir o envelope de envio não podiam ser utilizadas, obrigando os votantes a utilizar cola que eventualmente tivessem em casa para a requerida reconstrução.

Isto para não falar de uma linguagem muito pouco compreensível nas instruções para todas as dobragens em causa.

Confesso que, no meu caso pessoal, depois de ter desdobrado, votado, dobrado, colado, etc, enviei o meu voto temendo que o pretenso sobrescrito se desmanchasse no percurso e não chegasse incólume ao destino.

Nunca irei saber se o meu voto chegou em condições ou se terá ido engrossar a percentagem daqueles anulados por muitas e variadas razões.

Quanto á incrível e inaceitável pressa dos excelentíssimos senhores em altos cargos políticos que resolveram não esperar pelos votos da emigração, está agora a ser justificada com a necessidade de termos Governo antes do Brexit, previsto, mas não confirmado, para dia 31 do corrente.

Em primeiro lugar, há a dizer que é o Brexit, não é o fim do mundo e certamente não irão nesse dia soar as trompetas do Juízo Final. E o Governo britânico também não começará decerto a expulsar logo no dia 1 de novembro os cidadãos portugueses residentes no Reino Unido que eventualmente não tenham a sua permanência regularizada.

Mas, e em segundo lugar, se o iminente Brexit foi realmente uma das razões para uma pressa em todos os pontos deplorável, é mais uma prova que o próximo Governo, como o anterior, continuará a seguir a regra de “estrangeiros primeiro, Portugueses depois”,como já sucede com os Vistos Gold, a isenção de impostos para residentes estrangeiros, a expulsão permitida de inquilinos para alugar a casa a turistas e, não esquecer, o ensino do Português no estrangeiro, que continua a ser grátis para estrangeiros mas onde os alunos portugueses pagam as aulas, os manuais e uma certificação sem valor.

Os Portugueses em território nacional nunca ficaram tão longe das urnas como nas presentes eleições, tendo-se registado a taxa de abstenção mais alta da nossa democracia.

Os Portugueses no estrangeiro poderiam ter votado mais, com o processo facilitado pelo recenseamento automático e o porte pago, mas, com todas as dificuldades já elencadas, verificou-se o alarmante número de 35 mil votos nulos, facto que contribui para fomentar junto dos Portugueses além-fronteiras o sentimento de que o seu voto não é relevante, sentimento confirmado através do desprezo demonstrado pelos votos efetivos.

Mas o que é, infelizmente, relevante no processo eleitoral que agora terminou é o preocupante alheamento cívico, que cava um abismo cada vez mais profundo entre representantes e representados, pondo em perigo os verdadeiros princípios democráticos no nosso país.

 

Linda de Suza 19/20
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