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Almeida Garrett, na nota do primeiro ato da peça de teatro, estreada em público em 1843, “Frei Luiz de Sousa”, escrevia: “…estudo que incessantemente tenho feito da linguagem, do sentir, do pensar e do crer do nosso povo, que é o mais poético e espirituoso povo da Europa”.

Vem isto a propósito de uma troca de sms com o amigo Diamantino Gonçalves, no qual eu lhe dava parabéns pelas belas fotos que publica todas as semanas no Jornal do Fundão. Diamantino Gonçalves é um descobridor de lugares, um descobridor de imagens, de paisagens, um olhar sobre as terras e gentes da Beira Baixa que vai ficar para as gerações que nos seguiram, o presente oferecido para o futuro.

Na nossa troca de sms, evoquei evidentemente o mal do momento, o Covid-19, prolongado em 2020 e com toda a certeza em 2021.

No dito sms, dizia das consequências da Covid-19 sobre os jovens, que “também eles estão e irão pagar as favas”.

Aqui está o termo, o motivo, deste nosso escrito. Porque se diz e de onde vem a expressão “Pagar as favas?”

Chama-se este tipo e expressões de gíria ou expressões populares…

Puxando pela cabeça, vieram-nos outras expressões com a palavra favas: “Vai às favas”, “favas contadas”, “mandar tudo às favas”, “vai plantar favas”, “mando-te às favas”… estamos certos que a lista não é exaustiva.

Perguntamo-nos como surgem estas expressões e o que elas querem dizer.

Eis o fruto das nossas pesquisas e da nossa reflexão:

Favas contadas: a expressão quer dizer coisa segura, certa. Puxando mais longe, ficamos a saber que antigamente quando se procedia a votos para eleger alguém, utilizavam-se favas pretas e favas brancas. Cada votante colocava o voto, ou seja, a fava, na urna. Depois vinha o apuramento pela contagem dos grãos, sendo que quem tivesse o maior número de favas brancas estaria eleito. Os monges, quando reunidos em capítulo, procediam à escolha do abade através de um sistema de votação que utilizava a fava como boletim de voto. Ainda hoje, em certas associações, os votos se procedem com pedras brancas ou pretas.

Quando estamos fartos de ouvir ou de ver alguém, dizemos: “Vai às favas”. A expressão completa é “Vai à fava enquanto a ervilha enche”, porque as duas são semeadas na mesma altura, mas a fava fica pronta primeiro, a ervilha demora mais tempo, então a colheita faz-se enquanto se espera pela ervilha. As ervilhas eram consideradas um vegetal mais saboroso do que as favas e pedir a alguém para ir apanhar favas em vez de esperar pelas ervilhas, significa que queremos que essa pessoa se vá embora, que nos deixe de importunar ou chatear.

Quando a “mandar às favas” é uma forma de desprezar alguém, não lhe ligar, não lhe dar importância, mandar embora, expulsar, recusar. Como substituição desta expressão, podem utilizar-se outras, tais como “vai bugiar”, “vai pentear macacos”, “deixa-me” ou “vai-te lixar”.

Mandar tudo às favas” utiliza-se, em geral, quando estamos desencorajados, aborrecidos, desorientados e que abandonamos tudo.

Vai plantar favas” é como dizer, “vai às favas”, e utiliza-se como expressão popular quando queremos que alguém vá para longe, que não importune. Para dizer a mesma coisa, há quem diga: “vai pentear macacos”.

A expressão popular “pagar as favas”, que utilizámos no sms, quer dizer que se impute um ato praticado por uma pessoa, a uma outra, é a pessoa que não é culpada que vai ter que pagar. Aberto Bessa, no seu livro “A gíria portugueza” editado em 1901, com o prefácio de Theóphilo Braga (como se escrevia na altura), dava como exemplo para esta expressão: “O Jorge foi quem comeu as uvas e eu é que pago as favas”.

Um derivado da expressão precedente pode ser: “vais pagar as favas”. Quando um dos nossos pais utilizava esta expressão, era mau sinal: uma tareia, uma reguada, uma bofetada, estava à nossa espera ou estava a preparar-se.

Depois destes parágrafos lidos, a si de utilizar a expressão que melhor entender sobre o autor deste texto.

Para nós, as favas nunca estarão contadas, nada está adquirido.

 

Opinião
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