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“Princesa”, de Fernanda Farias de Albuquerque | Uma obra pioneira da Literatura Transgénero

Cultura

 

A Éditions Héliotropismes publicou há poucas semanas “Princesa”, o romance autobiográfico de Fernanda Farias de Albuquerque e uma das obras pioneiras da literatura transgénero na Europa e no Brasil. Um livro que retrata uma vida marcada por uma frágil e impetuosa tentativa de ultrapassar limites impostos, sejam eles territoriais, corporais, identitários ou linguísticos.

Fernando Farias de Albuquerque nasceu em Alagoa Grande, Estado da Paraíba, em 1963. Submetido desde o nascimento à miséria rural, Fernando cresceu sem pai tendo sido desde cedo vítima de abusos sexuais. Uma infância passada a lutar o corpo com que nasceu. Ainda adolescente, ele foge de casa e deambula pelas grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de janeiro, primeiro como ajudante de cozinha e depois como prostituta.

Fernando transformar-se-á progressivamente em Fernanda e adota o nome de Princesa.

Parte para a Europa e passa um curto período em Espanha. Em 1988, parte para Milão, onde deambula pelas ruas, prostituindo-se. Depois troca Milão por Roma. É por estes anos que Fernanda se torna dependente de heroína. Logo no começo da década de 1990, ela é acusada de tentativa de homicídio por uma outra prostituta e descobre ser portadora do vírus da SIDA.

Na prisão romana de Rebibbia, ela conhece Giovanni Tamponi, um pastor originário da Sardenha e, juntos, começam a escrever cartas e folhetos, misturando português, sardo e italiano, que circulam pela penitenciária. O homem, condenado a prisão perpétua, aconselha Fernanda a escrever a sua história. É então que ela entra em contacto com Maurizio Jannelli, um outro prisioneiro, condenado por ser membro das Brigadas Vermelhas e responsável por alguns projetos literários no cárcere.

É com a ajuda de Jannelli e de Tamponi que Fernanda escreve “Princesa”, publicado em 1994 em italiano, sendo, pouco depois, traduzido para português e várias outras línguas.

Já em liberdade, Fernanda encontra trabalho como secretária da editora que lhe publicou o livro, mas acaba por regressar às ruas e à vida anterior.

Em 1997, é protagonista do documentário “Le Strade di Princesa” de Stefano Consiglio, que acaba selecionado para a Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza e é mesmo difundido pelo canal público italiano, RAI.

Depois de ter sido expulsa de Itália, Fernanda, de volta ao Brasil, suicida-se em 2000.

Em 2001, o filme “Princesa”, baseado no livro, é realizado por Henrique Goldman e, em 2009, em Génova, nasce a Fundação “Princesa” que luta pelos direitos dos transexuais, tornando-se, desta feita, um símbolo dessa luta.

 

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