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Desde o dia 25 de setembro de 2018, uma Portuguesa, Maria, com 73 anos de idade, reformada, mora dentro de um carro, em Puteaux, uma das cidades mais ricas de França. Há 16 anos que pede um alojamento social à autarquia sem conseguir obtê-lo. 16 anos!

Maria mora há 32 anos em Puteaux, trabalhou na cantina de uma clínica, “sou uma pessoa honesta e sempre paguei os meus impostos” diz. Morou 10 anos na rue des Pavillons e depois morou 20 anos na rue Parmentier. Pagava 500 euros de aluguer de casa por mês, “sempre paguei, todos os meses”, até que o proprietário decidiu vender o apartamento “para ir para um país onde não paga impostos”… Portugal.

E foi nesse dia 25 de setembro de 2018 que a vida de Maria mudou completamente.

Até ali tinha uma reforma “tranquila”. Encontrava-se com as amigas, começou a frequentar aulas de inglês, de culinária, de yoga, de dança e até de informática. “A bem dizer, só comecei a ter amigas quando me reformei. Até lá, não trabalhava 35 horas por semana, mas sim 12 horas por dia, das 7h00 da manhã às 19h00 da noite, não tinha tempo para fazer amizades” conta ao LusoJornal.

Diz que não tem partido mas assume que votou por Emmanuel Macron nas eleições últimas Presidenciais “porque ele dizia que não queria ver ninguém a viver na rua” disse numa entrevista à Sud Radio. “Mal eu imaginava que uns meses depois era eu que me ia encontrar na rua”.

 

Há 16 anos à espera de um alojamento social

Com uma reforma de 1.380 euros por mês, Maria diz que é impossível encontrar um alojamento em Puteaux, uma cidade com 45.000 habitantes no polo de negócios de La Défense. “Nem um quarto consigo alugar” queixa-se. Por isso, a solução passa unicamente pela obtenção de um alojamento social.

Maria denuncia que a Maire de Puteaux, Joëlle-Ceccaldi-Raynaud, nunca lhe respondeu e nunca se dignou recebê-la!

Esta quinta-feira, antes de conversar com o LusoJornal, Maria obteve a declaração em como fez um primeiro pedido de alojamento social há exatamente 16 anos, no dia 17 de março de 2004. O LusoJornal tem a cópia. O último pedido foi feito dia 8 de janeiro deste ano. São pedidos que ficam sempre sem resposta.

Interrogada em pleno Conselho municipal, pelo Conselheiro da oposição Christophe Grébert, Joëlle-Ceccaldi-Raynaud respondeu que uma proposta tinha sido feita a Maria em junho de 2018, “mas ela não aceitou”.

Maria contesta. “Recebi no dia 18, uma carta que tinha data do dia 13, para responder até dia 19”! Era um pedido para completar o dossier, cuja cópia o LusoJornal também tem, com vista a lhe ser feita uma proposta de alojamento. Como a resposta chegou tarde, o alojamento foi atribuído a outra família… deixando Maria na rua.

Outras propostas foram-lhe feitas para alojamentos sociais noutras cidades. “Porque me querem ver fora de Puteaux?” pergunta Maria incrédula. “Vivi aqui 32 anos, é uma vida, conheço as pessoas aqui, não quero sair de Puteaux”.

No último Conselho municipal, Joëlle-Ceccaldi-Raynaud teria prometido ao Conselheiro municipal da oposição Francis Poézévara “que ia estudar o meu caso este mês de fevereiro” disse Maria com alguma esperança ao LusoJornal. Por enquanto nada aconteceu.

 

Este é o momento para resolver a situação

À porta das eleições municipais, este é o momento para Maria ver o seu assunto resolvido. “Se não resolver nada este mês, depois também não vou conseguir nada” confessa ao LusoJornal.

Um dos apoios de Maria tem sido Christophe Grébert, Conselheiro municipal da oposição, um antigo jornalista de Europe 2 e de RFM, opositor histórico do antigo Maire de Puteaux, Charles Ceccaldi-Raynaud, e depois da filha e atual Maire, Joëlle Ceccaldi-Raynaud. Antigo socialista próximo de Dominique Strauss-Kahn, mudou-se depois para o MoDem de François Bayrou, mas anunciou agora que não se apresenta “em lugar elegível” às próximas eleições de março de 2020. Desta vez a lista “Puteaux futur” vai ser liderada por Bouchra Sirsalane.

Todos os candidatos da oposição têm mostrado apoio a Maria. “Querem que eu seja candidata, mas eu tenho respondido que não” diz ao LusoJornal.

Maria não liga a partidos, tem ido todos os dias à Mairie, na espectativa de ser recebida pela Maire da cidade. De vez em quando a polícia faz uma intervenção para a retirar das escadas do município, sempre que “alguma personalidade importante” por ali passa. Senão, fica até à hora de fecho das portas.

 

Mediatização não tem ajudado

No passado dia 7 de fevereiro, o jornalista Jallal Kahlioui, do canal AJ+ realizou uma reportagem sobre Maria. Mais uma vez, a Portuguesa conta o seu problema, como já tinha contado à Sud Radio e a outros jornalistas. Vê-se na reportagem deitada no banco traseiro do caso, algures num parque de estacionamento subterrâneo de Puteaux. Põe o telefone a carregar numa tomada e fica a aguardar que ninguém o roube.

Sarah Frikh, que trabalhou para programas da RTL durante 11 anos, à procura de casos insólitos, e que lançou há 8 anos um movimento cidadão intitulado “Réchauffons nos SDF” preocupa-se particularmente com os casos de mulheres “sem domicílio fixo” (SDF).

“O caso de Maria preocupa-me particularmente” disse ao LusoJornal. Desde que encontrou Maria, tenta desesperadamente ajudá-la, mas em vão. “É uma pessoa formidável” disse-nos.

Sarah Frikh é autora de uma petição em linha dirigida ao Presidente da República que já conta com quase 400.000 assinaturas.

“O quotidiano de uma mulher SDF consiste em fugir às múltiplas agressões das quais é vítima. Isto não é uma vida” escreve na petição. “Cada noite corre o risco de novas agressões físicas e sexuais. Uma imagem não me sai da cabeça: a de uma mulher encolhida no último andar de um parque de estacionamento, tremendo de medo com a ideia de voltar a ser agredida”.

Sarah Frikh pede ao Presidente da República que sejam criados Centros de acolhimento que permitam guardar em segurança e com dignidade esta mulheres, “permitindo-lhes o acompanhamento específico necessário para afrontarem o trauma”.

 

Os pais fugiram à ditadura portuguesa

Maria chegou a França com apenas 17 anos. “Eu tive de sair de Portugal porque o meu pai era Comunista. Os meus pais fugiram à ditadura de Salazar”. Foi a primeira mudança que lhe foi imposta porque, sendo de menor idade, teve de acompanhar a família até França.

Depois, morou em Nogent quando o pai da filha morreu. “Fui obrigada a sair de Nogent para que a minha filha fizesse o luto do pai. Ela andava sempre triste e aconselharam-me a sair da cidade para a ajudar”. Mais uma vez, foi forçada a mudar de localidade.

Por isso agora não quer sair de Puteaux. “É aqui que vivo há 32 anos e é aqui que quero morrer” diz ao LusoJornal. E acrescenta que “serei enterrada numa fossa comum em Puteaux”.

É da região centro de Portugal, e sempre guardou ligação com o país. “Eu sou do tempo da Rádio Eglantine e do Rádio Clube Português. Participei nas manifestações em Paris, em defesa das rádios livres, com a minha filha nos braços” lembra.

Mas já reformada, com as amigas, queria visitar a Embaixada de Portugal em Paris no Dia do Património. “Com as minhas amigas francesas visitámos muitos monumentos e pensei que podia visitar também a Embaixada de Portugal. Telefonei para lá e disseram-me que a Embaixada não se visitava” contou dececionada ao LusoJornal.

Desde que o Embaixador Jorge Torres Pereira está em função em Paris, a Embaixada já se visita no Dia do Património, mas Maria não o sabia.

Também o Consulado de Portugal a desiludiu. “Telefonei para lá para renovar o meu Cartão do Cidadão e disseram-me que tinha 3 meses de espera. Veja só em que situação estão as instituições portuguesas…” queixa-se.

 

O eterno problema da “má imagem”

Maria tem um irmão, em Portugal, “que necessita de mim, financeiramente”, e tem uma irmã “num outro país, longe”. Tem também uma filha, em Londres, mas diz que não quer ir para lá, porque não fala a língua.

Quando saiu do apartamento onde morava, a filha, que está casada com um inglês, veio dar apoio. Arranjou-lhe uma “boxe” para deixar a mobília e deixou-a em casa de uns amigos. “Mas era difícil. Eles estavam em casa deles, claro…” e decidiu passar a dormir no carro.

Já lá vai quase um ano e meio.

Emociona-se quando fala da filha. Não percebemos se a filha sabe que ela dorme num carro. “Agora já não a posso receber em minha casa” lamenta discretamente. Não necessita de dizer mais nada!

Um dirigente da Associação portuguesa de Puteaux visitou-a em frente da Mairie, disse-lhe que foi uma pessoa que os alertou que uma Portuguesa estava sem domicílio fixo em Puteaux. “O Senhor Agostinho disse-me que eles não podem fazer nada. A associação recebe subsídios da Mairie e prefere não estar contra a Maire” explica Maria ao LusoJornal.

“Eu até era sócia da associação” comenta.

O Presidente da Associação franco-portuguesa de Puteaux, José Afonso, disse ao LusoJornal que “eu não me meto nisso” e explicou que “este é um caso de política. Se ela não se tivesse encostado à oposição, se tivesse vindo primeiro à associação, já lhe tínhamos encontrado uma casa”.

“Toda a Comunidade portuguesa aqui está contra esta senhora, porque ela está a dar uma imagem negativa de nós” queixa-se José Afonso, levantando este eterno problema da “imagem” e confirmou que “a associação está dependente da Mairie, tanto pelos locais que temos e pelo subsídio”.

“Ela tem dinheiro, diz José Afonso, ainda há pouco tempo fomos numa viagem a Roma e ela também foi” diz José Afonso ao LusoJornal e acrescenta que “aqui tudo se sabe, ela tem uma casa grande em Portugal, porque razão não vai para lá?”.

Mas Maria não quer regressar a Portugal! E não se queixa por não ter dinheiro. Apenas não tem dinheiro suficiente para alugar um apartamento na cidade onde mora há 32 anos e estima que é seu direito continuar a morar naquela que já é a “sua” terra.

Na conversa com o LusoJornal, José Afonso prometeu “tocar duas palavras à Maire no próximo domingo”. Mas sem esperanças que o caso se resolva.

 

Conselheiro municipal português não sabe de nada!

Na Mairie de Puteaux há um Conselheiro municipal português, Manuel Baptista, com quem o LusoJornal também falou. Confessou desconhecer o problema, mas disse que sabe que a Maire já lhe encontrou soluções, “mas ela recusa”.

Curiosamente Manuel Baptista nunca sentiu interesse em conversar com Maria. Há um ano e meio que uma Portuguesa manifesta em frente da Mairie e o único Conselheiro municipal “português” de Puteaux não sabe de nada! Não sabe se a Maire recebeu Maria, não sabe se lhe fez alguma proposta, nem qual proposta!

“Ele sabe muito bem do meu caso, porque me pode ver da sua varanda” diz Maria, mas ainda nem falou à compatriota Portuguesa! “Ela também nunca pediu para falar comigo” diz Manuel Baptista ao LusoJornal.

A solidariedade Portuguesa não funciona em Puteaux! Há um ano e meio que a situação dura e Maria consegue ser transparente tanto para a Maire da cidade, como para o único Conselheiro municipal português, e para a Associação portuguesa local.

Mas Maria continua de cabeça erguida. “Há pessoas que me propõem dinheiro, mas eu não quero dinheiro. Eu sou honesta, tenho um cadastro virgem, não aceito dinheiro, nem quero esmola. Quero apenas poder viver em Puteaux” diz.

Maria continua a trabalhar. Para completar a sua reforma, claro, mas também para ter uma razão para viver. Trabalha para pessoas ainda mais idosas do que ela, um homem de 95 anos e uma mulher de 94 anos. Faz-lhes as compras e limpa-lhes a casa. “São eles que me dão força para viver, sinto-me útil. Saber que há pessoas que me esperam e que necessitam de mim, dá um sentido à minha vida”.

Esta semana Maria não dorme na rua.

Durante as férias escolares, uma família deixa-lhe o apartamento. Esta semana ainda tem um sofá para se sentar, uma cama para dormir, uma mesa onde comer, uma sala de banho onde se lavar,…

A partir da próxima semana volta para o carro. Na esperança que, 16 anos depois, a Mairie se digne atribuir-lhe um alojamento social.

Enquanto há vida, há esperança, escrevemos nós. Mesmo se sabemos que quem espera… desespera.

 

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