Saúde: Dia Mundial do Pânico – uma aflição sem origem


O coração vai saltar do peito, Lara sente cada batimento, todo o ar que tenta inspirar parece que não chega, tem um elefante a comprimir-lhe o peito com a pata, embora respire muito depressa o ar não é suficiente, sente que vai desmaiar, ou pior morrer, e não controla o pensamento, já não lhe pertence, está a ficar louca de certeza, perdeu o controlo, o corpo treme, a aflição é tanta que começa a chorar e não consegue parar, e ela só quer que pare, mas não está sob a sua alçada, transpira em bica e já teve momentos semelhantes no passado em que os músculos das mãos se contraíram contra sua vontade. É uma aflição sem origem, um medo de algo que não sabe o quê.

Lara recebeu herança genética dos nossos antepassados que sobreviveram num ambiente hostil em que podíamos ser atacados por predadores, outras tribos ou até alterações meteorológicas súbitas. Para qualquer destas situações os antepassados de Lara desenvolveram respostas fisiológicas importantes para assegurar a sobrevivência do indivíduo: a famosa resposta de fugir ou lutar.

Ora para qualquer destas opções é importante alocar todos os nossos recursos fisiológicos (entenda-se, oxigénio) no que mais importa, no caso os músculos, coração e cérebro. Por isso é que a respiração acelera e a frequência cardíaca aumenta, na tentativa de desviar a maior parte do sangue de tudo o que não seja vital para fugir ou lutar e focar em túnel apenas o caminho que vamos usar para fugir e resolver a situação que nos coloca em perigo.

No entanto quando a respiração se torna demasiado rápida, podem surgir ou agravar-se sintomas como tonturas, formigueiros ou sensação de desmaio.

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O erro encontra-se apenas no tempo da resposta, uma vez que Lara reside em Portugal, em 2026, e encontra-se no metro, um meio seguro, a ir para a faculdade. Altamente improvável que subitamente surja um tigre para a atacar. Mas, para o cérebro de Lara foi exatamente isso que aconteceu.

A Lara não existe de facto, mas a história e os sintomas que refiro anteriormente ocorrem a muitas pessoas que sofrem de perturbação de pânico. Um quadro clínico, com diagnóstico e tratamento. Embora muito angustiantes, os ataques de pânico atingem normalmente o pico aos 10 minutos e depois os sintomas vão diminuindo. Há quem tenha um de vez em quando, há quem tenha vários por dia. Quem tenha períodos em que tem vários e depois longos períodos sem sintomas. O pânico pode fazer parte de outro diagnóstico psiquiátrico ou pode existir sozinho. Qualquer pessoa pode ter um ataque de pânico, e uma grande parte da população terá pelo menos um durante o seu tempo de vida. Isso não significa, no entanto, que tenha perturbação de pânico.

A boa notícia é que existe tratamento, normalmente com 2 vertentes: uma farmacológica para diminuir intensidade, frequência e que surjam novos ataques de pânico; e outra psicoterapêutica, para desenvolver estratégias para conhecer os gatilhos e conseguir gerir e lidar com os ataques de pânico. Deixo uma nota final: os profissionais ajudam a tratar as doenças, mas hábitos de vida saudáveis, que são sobretudo dependentes da participação ativa de cada pessoa, são também da maior importância.

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Dr. João Cardoso

Psiquiatra

Clínicas Leite

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