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Comunidade

 

Ainda hoje se consideram certas zonas onde decorreu a I Guerra mundial como “zonas poluídas”. Poluídas por tudo quando ficou nos terrenos, nomeadamente restos de bombas, bombas não rebentadas, corpos de soldados…

Finda a guerra, tentou-se despoluir certas zonas, despoluição que para corajosos particulares e empresas era fonte de salário ou dinheiro suplementar. Este trabalho era de elevado risco de acidentes e explosões.

Algumas das vítimas dessa despoluição tinham nacionalidade portuguesa.

Despoluir os campos de batalhas célebres do planalto de Craonne, Bouquanville, de Californie, du Chemin des Dames… tornava-se praticamente impossível. A fim de apanhar destroços, o Estado francês autorizou a recuperação de metais na «Zone rouge». Várias empresas compraram o direito de ali trabalharem. Trabalhavam para estas empresas uma multidão de operários de diversas nacionalidades, mas sobretudo polacos, portugueses, árabes e chineses. Eram verdadeiras colónias de imigrantes e de soldados que ali se instalaram para procurarem aço, ferro e cobre. As instalações em barracas, perto das ruínas de aldeias destruídas, faziam lembrar os costumes do Far-West.

De realçar que pouco controlo houve, tanto nas empresas como nos operários.

Os acidentes viriam a suceder-se.

A 22 de outubro de 1923, o operário português Maria Manoel, de 36 anos, sofreu um grave acidente em Beaucourt-sur-Hamel, perto de Albert, quando procedia à desmontagem de uma bomba. Querendo desaparafusar um foguete austríaco de 130 milímetros, provocou uma violenta explosão por volta das 11h00 da manhã. Um dos camaradas e cultivadores vizinhos de imediato correram para o local da explosão. Manoel, estendido no chão, perdia imensamente sangue. O médico Ducellier, de Albert, constatou a presença de uma ferida profunda no crânio. O infeliz tinha o braço direito todo estilhaçado e os dois joelhos em muito mau estado. Maria Manoel foi transportada para o hospital de Albert num estado desesperado.

A 16 de dezembro de 1925 são três as vítimas portuguesas numa explosão em Lesboueufs, no departamento da Somme. Tinham por nome António Charrier (?), de 53 anos, Júlio Galhardo, de 49 anos, e António Peres, de 27 anos. Os três recuperavam metais. Júlio Galhardo, ao tentar desenroscar uma bomba este rebentou, matando o seu manipulador e António Peres, ferindo gravemente António Charrier.

A 10 de setembro de 1926, José Fernandes morre perto da vila de Combles. Trabalhava no nivelamento de terreno quando, com o engenho que conduzia, bateu numa bomba que o matou instantaneamente, o corpo ficando completamente desagregado.

Os acidentes sucedem-se. A 4 de abril de 1927, José Gonçalves de 26 anos, residente em Bapaume, encontra a morte na vila de Le Sars, na anexa Abbaye d’Écaucourt, ao bater numa bomba para tentar recuperar a cintura de cobre. As pessoas que ouviram a explosão acorreram para tentar socorrer o imprudente José Gonçalves. O médico ordena o transporte do ferido para o hospital de Arras, mas viria a falecer antes de chegar à viatura que o devia transportar. A vítima, que tinha trabalhado até ao dia 1 de março para a empresa Borge, já não tinha o direito de recuperar metal. Um inquérito foi ordenado aos agentes policiais Demetz e Duprez, de Bapaume.

Aqui ficam descritos o caso de alguns portugueses vítimas colaterais da I Guerra mundial. Gente evidentemente humilde, que aqui lembramos. Também eles são testemunhas e exemplos de pessoas que emigraram de Portugal nos anos 1920 para colmatar a falta de mão de obra, sobretudo masculina, em França, dado os efeitos da I Guerra mundial e a necessidade de reconstruir.

 

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