Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.
Donativos LusoJornal

 

A segunda fase do Campeonato francês da segunda divisão de voleibol, a Ligue B, arrancou há poucos dias. O Martigues integra o Grupo A nesta segunda fase da prova com o Plessis-Robinson, o Saint Nazaire e o Saint Quentin.

A equipa do sul da França, conta com dois atletas lusófonos: o português Francisco Pombeiro e o luso-cabo-verdiano Gerson Pereira. Os dois voleibolistas chegaram ao clube francês durante esta temporada 2020/2021.

De notar que na fase regular os ‘Martégaux’ ficaram no oitavo lugar com 12 pontos, vencendo 3 jogos e perdendo treze.

O LusoJornal falou com Gerson Pereira que chegou ao Martigues Volley-Ball proveniente dos açorianos do Fonte do Bastardo.

 

Como chegou essa oportunidade de jogar em França?

Eu já tinha pensado em sair de Portugal e vir para França. Encontrei esta equipa em outubro. Foi complicado porque todas as equipas já tinham o plantel fechado. Vim então para a segunda divisão, para o Martigues. Quando cheguei, receberam-me muito bem. No começo estava tudo bonito. Mas com os treinos, os jogos e as derrotas, estamos numa situação muito má.

 

Quais são as diferenças entre a primeira divisão portuguesa e a segunda francesa?

O Campeonato francês da segunda divisão é mais forte do que o português. Mas o Campeonato em Portugal tem muita mais conexão entre os jogadores, as equipas, o trabalho, é mais sólido. Aqui é totalmente diferente. Aqui se te lesionares, vais ter de fazer ‘fisio’ numa outra cidade, tens de resolver tudo por ti. Em Portugal, quando te lesionas, o clube, a equipa ajuda-te a fazer tudo. Sentes que tem alguém a olhar para ti e dá-te vontade de trabalhar ainda mais. Os jogos são mais competitivos entre si em Portugal. Mas o nível em França é muito mais alto, é diferente.

 

Como tem sido a adaptação, e sobretudo a adaptação à língua?

É estudar, são diferentes aplicações para aprender a falar francês. E tentar falar com pessoas em francês. Quando não sei, vou com os gestos, até vai em inglês (risos). Até falo em crioulo que é a minha língua. Eu não tenho vergonha disso, eu falo tudo. Quem não me entender, vai me corrigindo. Eu já sei dizer algumas coisas em francês, e sobretudo entendo cada vez mais o francês, isso ajuda-me muito.

 

Nasceu em Cabo Verde, que relações mantém com o país?

Aquela relação única. Não tem comparação. Todos os anos, férias é Cabo Verde. Não há nenhum outro país, não quero saber. Tenho toda a minha família lá e os meus amigos. Não preciso conhecer outro planeta, se já tenho o meu planeta que posso explorar ainda mais. Sou de Santiago, Tarrafal. É uma cidade muito bonita.

 

O que podemos dizer do voleibol cabo-verdiano?

Eu saí da Seleção cabo-verdiana quando fui para Portugal. Isso ocorreu em 2009/2010. Desde aí e até hoje, nunca mais fui para a Seleção. Saí totalmente.

 

Gerson vai representar Portugal e não Cabo Verde, quais são as razões?

Quando joguei na Seleção no meu primeiro ano, foi tudo muito bonito. Eu só tinha um ano, ou quase um ano, de voleibol, e nunca tinha jogado voleibol. Houve muitas críticas de pessoas mais evoluídas e melhores do que eu naquela altura. Apesar das críticas, o treinador convocou-me e fui para os Jogos da Lusofonia que foram em Portugal. Consegui ser o atleta revelação, melhor central da competição. Ganhei experiência e reconhecimento. Voltei para Cabo Verde e depois tínhamos uma qualificação na Zona B de África que decorria no Senegal. Foi a pior experiência que eu tive enquanto ser humano. O alojamento… Basicamente construíram umas barracas e colocaram-nos lá, não queriam saber de nós. Foi horrível, foi totalmente desumano. No entanto, chegamos à final contra o Senegal. Mas eu tive uma entorse no pé, uma entorse muito grave. Voltei para Cabo Verde. Ninguém quis saber de mim. Eu fiquei de cama um mês, um mês e pouco. Não conseguia nem pousar o pé para ir para o hospital para fazer o tratamento. Isso tudo tinha de sair do meu bolso e do bolso do meu treinador, que é meu amigo até hoje. Ele ajudou-me. A Seleção cabo-verdiana não quis saber de mais nada. Fiquei com uma sensação muito má. Eu disse que não ia fazer parte da Seleção nunca mais. Eu adoro a minha Seleção, mas não quero fazer parte disso enquanto jogador.

 

Já foi convocado para representar Portugal, era um sonho?

Claro que sim e há muito tempo. Para ser sincero, desde o meu segundo ano em Portugal, os dirigentes já tinham falado comigo. Foram cinco anos porque eu não tinha documentos. Depois, quando tive os documentos, tinha de esperar dois anos. Quer dizer, foram à volta de sete, oito anos à espera. Quando fui convocado, fiquei muito contente. Mas depois soube que não podia ir. Chamaram novamente, fiquei novamente contente, mas acabou novamente por não se realizar com esta situação toda.

 

A pandemia estraga a experiência que tem em França?

Depende e é relativo. Há clubes que dependem disso, há jogadores que dependem disso. A nível monetário, claro que vai haver cortes. A nível de jogadores, há jogadores que só se conseguem mostrar, provocando ou chamando a atenção do público. Então para mim isso é tudo relativo.

 

Como é que se chega a voleibolista?

Para ser sincero, eu gostava de fazer apneia, mergulhar. Todos os dias eu praticava, até mesmo à noite. O meu cabelo era amarelo de tanto ir ao mar. Eu pescava, fazia apneia. Os meus amigos praticavam futebol e desportos perigosos também. No que diz respeito ao voleibol, havia pessoas que já treinavam há alguns anos, um dia fui ao mar, eles estavam a praticar voleibol, eu achei interessante e quis jogar com eles. Não sabia de nada, fui péssimo nesse dia (risos). Depois comecei a treinar com eles voleibol de praia, o treinador deixou. Os treinos eram três ou quatro vezes por semana. Eu ia duas ou três vezes… no mês (!) No fundo, eu vencia. A minha história é que a minha família não tinha condições para eu jogar, para eu ter um par de ténis. Era só para escola, nada mais. Eu jogava descalço, num piso de cimento, com buracos. Joguei durante muito tempo descalço. Depois comecei a gostar mais do voleibol, comecei a ir todos os dias, o treinador viu os meus esforços e arranjou-me um par de ténis, ténis velhos (risos). Para mim foi uma vitória. Eu comecei do nada, não tinha mesmo nada, e alguém acreditou em mim, Luca Privitera, um treinador italiano. Ele acreditou em mim. Eu só tive sapatilhas boas quando vim para Portugal. Quando vim para Portugal, tive de estudar para ter uma formação e ter algo melhor mais para a frente. Recomecei o voleibol em Esmoriz, depois fui para a Fonte do Bastardo e fui Campeão de Portugal com essa equipa portuguesa. Foi muito bom. Eu comecei do nada. Fui, sou e vou ser ainda muito mais.

 

Desporto
X