LusoJornal | Carlos Pereira (Arquivo)

Faleceu João Correa, o cineasta que levou Aristides de Sousa Mendes ao cinema


Faleceu há duas semanas João Correa, autor, realizador e uma das vozes mais persistentes na divulgação da memória de Aristides de Sousa Mendes. Nascido em Leiria, expulso da Universidade de Lisboa aos 18 anos por participar na revolta estudantil contra o regime de Salazar, João Correa passou por Paris antes de se exilou na Bélgica em 1963, país onde construiu toda a sua carreira cinematográfica e literária.

Ao longo de décadas, realizou e correalizou numerosos filmes de ficção – como “Féminin, féminin”, com Marie‑France Pisier – e vários documentários marcantes da produção belga, entre eles “Les enfants de l’oubli”. Paralelamente, publicou livros onde a defesa da liberdade, da democracia e dos direitos humanos é uma constante.

Mas foi sobretudo o seu trabalho dedicado à figura de Aristides de Sousa Mendes que marcou de forma indelével a sua obra. Em 2013, João Correa levou ao cinema o livro que ele próprio tinha escrito, “Sousa Mendes – Le Consul de Bordeaux”, transformando-o num filme que devolveu ao grande público a dimensão humana e histórica do diplomata português que, em 1940, desafiou Salazar e salvou mais de 30 mil pessoas – entre elas cerca de 10 mil judeus – ao emitir vistos contra as ordens do Governo de Salazar.

O filme, correalizado por João Correa e Francisco Manso, foi apresentado em várias cidades europeias e tornou-se uma das obras mais acessíveis e pedagógicas sobre a ação do “Justo de Bordeaux”, reconhecido por Yad Vashem em 1967. Através do cinema, João Correa contribuiu decisivamente para que a história de Sousa Mendes chegasse a novas gerações, reforçando a importância da memória e da coragem individual perante a barbárie.

Além do filme, João Correa dedicou vários livros, peças de teatro e trabalhos de investigação à vida e ao legado de Sousa Mendes, explorando não apenas o contexto histórico, mas também a fragilidade das democracias e dos direitos fundamentais – temas que atravessam toda a sua produção. Um deles tem um texto do jornalista Carlos Pereira, Diretor do LusoJornal.

A comunidade cultural e lusófona na Bélgica perde um criador comprometido, um humanista e um defensor incansável da liberdade. João Correa deixa uma obra vasta, coerente e profundamente marcada pela ética da responsabilidade. E deixa, sobretudo, a certeza de que o cinema pode ser um instrumento poderoso para preservar a memória e inspirar consciência cívica.

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