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O Diretor do Serviço Nacional da Pastorale des Migrants, Carlos Caetano diz que a França tem capacidade para acolher mais refugiados e migrantes, mas considera que se está num perene clima de campanha eleitoral “que não favorece um discernimento são e sereno sobre a questão migratória”.

Carlos Caetano foi ordenado Padre em Peniche, na sua terra natal, em 2007. Mas já tinha começado em 1999 uma experiência migratória já que fez a sua formação na Itália e também esteve na Colômbia, na periferia de Bogotá, a trabalhar com os “desplazados”, os refugiados internos.

Depois de ter sido ordenado Padre, os primeiros três anos de ministério passou-os na Diocese de Milão, como Capelão dos migrantes ingleses e filipinos e há 8 anos que veio para França, inicialmente ao serviço da Missão católica italiana, depois como responsável pela Comunidade portuguesa de Saint Germain-en-Laye e também como Capelão Nacional das Comunidades Católicas Portuguesas. Há dois anos foi Convidado pela Conferência Episcopal francesa para ser Diretor do Serviço Nacional da Pastorale des Migrants.

Na Conferência episcopal, enquanto Diretor da Pastorale des Migrants, apoia as várias Dioceses. “Em teoria, todas as Dioceses têm de ter um responsável e até mesmo uma equipa diocesana referente para a Pastoral dos migrantes, e nós, a nível nacional, tentamos coordenar, dar apoio, desenvolver uma reflexão teológica, social, até sociológica e tentamos acompanhar este desafio enorme que é a Pastoral dos Migrantes, o acolhimento dos refugiados e as pessoas itinerantes, como por exemplo a Pastoral dos Ciganos, a Pastoral dos Marítimos, a Batellerie e os ‘artisans de la fête et forains’, eles também têm um acompanhamento pastoral específico” explica Carlos Caetano ao LusoJornal.

“No meu serviço tentamos escutar o terreno, tentamos recolher quais são os desafios que estão a ser vividos a nível local, tentamos produzir material, muitas vezes até material bilingue que possa ajudar as pessoas que estão no terreno a melhor acompanhar estes migrantes, estes refugiados, estas pessoas que vivem o desafio da mobilidade humana” explica Carlos Caetano. “E tentamos também ajudar os Bispos a melhor compreender qual a realidade concreta deste desafio, porque também não podemos estar à espera que os Bispos saibam tudo, conheçam tudo e é por isso que os vários serviços pastorais da Conferência episcopal estão ali ao serviço dos Bispos”. Tal como há uma equipa para a Pastoral dos Migrantes, há uma outra para a Pastoral juvenil, outra para a Catequese, outra para a Liturgia, e assim tentamos que haja uma pequena equipa para os campos mais importantes, para a vida normal de uma Diocese e de uma Paróquia”.

Este ano de 2019 é um marco importante para Carlos Caetano. “Vou fazer mais anos a viver fora de Portugal do que em Portugal”. São quase 20 anos de migração na Congregação dos Missionários de S. Carlos. “São capítulos muito bonitos, muito ricos, cheio de boas experiências”.

Interrogado sobre a posição da Igreja quanto aos refugiados que chegam à Europa, Carlos Caetano começa por dizer que “a posição da Igreja francesa é a posição do Papa Francisco”. Depois explica que “tentamos promover uma cultura do encontro, uma cultura do acolhimento, acolhimento fraterno, generoso, solidário, e no entanto, tentamos não ter uma visão ingénua, ninguém está a dizer que temos de acolher todos, sempre e sem critérios” diz Carlos Caetano ao LusoJornal. “Temos de estar muito atentos às urgências, há casos que exigem uma resposta imediata, estamos por exemplo a falar de menores não acompanhados, pessoas numa situação de particular fragilidade, esses casos têm de ser acolhidos, têm de ser imediatamente tratados e depois podemos então falar do plano mais complexo e também mais difícil de uma política migratória para a Europa”.

O Diretor da Pastoral dos Migrantes sabe que o contexto é difícil. “Não podemos deixar que o medo seja o nosso conselheiro. Os medos, é preciso escutá-los, é preciso respeitá-los, no entanto não podemos deixar que a nossa ação seja determinada ou condicionada pelos nossos medos”.

E afirma que “a Europa e principalmente a França tem capacidade para acolher mais gente. Não estamos, de maneira nenhuma, para lá da capacidade da sociedade francesa, podemos acolher mais, podemos dar mais, podemos integrar muito mais”, mas para isso é necessário também que haja vontade política. “Ora, parece-me que estamos num perene clima de campanha eleitoral que não está a favorerer um discernimento são e sereno sobre a questão migratória”.

O trabalho de Carlos Caetano está no limite entre a ação religiosa e a ação política. “Nós temos uma fé que vai iluminar a nossa maneira de reler o que está a acontecer. A nossa fé é uma fé incarnada, uma fé que caminha com os pés no chão, é uma fé para os homens e para as mulheres de hoje, por isso tentamos ler o que está a acontecer a nível da União Europeia, a nível do fluxo migratório, com a luz do evangelho, que é uma luz que nos vai dar valores, critérios, que nos vai dar uma maneira mais fraterna, mais cristã de procurarmos as respostas que são necessárias para este desafio tão atual e tão complexo”.

Por tudo isso, o serviço de Carlos Caetano “está entre a reflexão teológica, pastoral, mas ao mesmo tempo temos que utilizar todos os instrumentos da sociologia, das ciências humanas que nos ajudam a melhor compreender o quanto é complexa esta questão”.

E o Padre português pede mais ação. “Temos de ter em atenção que boas intensões e bons sentimentos não bastam, é bom que haja uma lista de valores que nos ajude a agir bem e a caminhar na boa direção, mas depois precisamos de respostas muito concretas, que passam por medidas políticas, que passam pela criação de infraestruturas, que passam por uma articulação dos Estados membros da União Europeia, por isso, tudo isso é uma fé, mas uma fé incarnada, uma fé que é capaz de dar resposta aos problemas de hoje e não apenas ficar no plano da filosofia, ou das ideias ou dos sentimentos. A nossa fé é uma fé que nos ajuda a sermos homens de ação”.

Carlos Caetano é também o Capelão da Comunidade portuguesa. “Apesar do número muito importante dos nossos migrantes portugueses aqui na França já conseguirem se defender e falarem perfeitamente a língua francesa, a fé e a oração pedem – e eu diria até, exigem – a língua que aprendemos ao colo da nossa mãe. A oração pede a língua da intimidade. É verdade que nós temos muitos Portugueses que falam muito bem o francês, quase até melhor do que os Francesas, mas quando estamos neste clima da oração, quando queremos falar a Deus nosso Pai, é estranho, mas é difícil falarmos numa língua que não é a nossa língua mãe. É por isso que tantos Portugueses, que estão perfeitamente integrados na sociedade francesa, mesmo assim sentem a necessidade, ao domingo e não só, de poderem celebrar a sua fé em português e também com aquela sensibilidade que é tipicamente portuguesa e que é diferente da sensibilidade francesa. Nós somos povos muito pertos, mas, no entanto, há grandes diferentes a nível cultural e de sensibilidade religiosa”.

Carlos Caetano diz que as diferenças culturais “não devem nunca ser vistas como um obstáculo, mas devem ser vistas e valorizadas como parte da riqueza da Igreja católica. O bonito da Igreja católica é que todos os povos, todas as culturas, todas as línguas são recebidas, acolhidas, integradas e valorizadas. Ainda bem que há tantos povos e tantas línguas que querem celebrar a sua fé e que fazem parte deste grande tesouro que é a Igreja católica” conclui.

 

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