Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Ana Isabel Freitas é artista plástica residente em Paris, doutoranda na Universidade de Paris-Nanterre, mas também é realizadora de filmes documentários, o último dos quais acabou há duas semanas e a situação de pandemia de Covid-19 fez com que ainda não pudesse apresentar publicamente.

Durante um ano, a jovem realizadora seguiu três grupos de folclore portugueses em França – o Grupo folclórico da ARCOP de Nanterre, o Grupo folclórico e etnográfico Povo da Nóbrega de Créteil e o Grupo Juventude Portuguesa de Paris 7 – para realizar a sua primeira longa-metragem, “Lá em baixo” um filme com mais de duas horas.

“Gostava mesmo muito de o poder apresentar pela primeira vez em Portugal. A minha primeira curta-metragem estreou no DOC Lisboa em 2016 e neste momento estou a tentar ver se consigo levar também a minha primeira longa-metragem ao mesmo festival” disse numa entrevista ao LusoJornal, conduzida por Vítor Oliveira.

“É um filme falado pelas pessoas que vivem em França e que fazem parte desses grupos folclóricos ou seja, eu não vou falar com especialistas, com pessoas exteriores, é um documentário que é feito de dentro para fora, com as pessoas que fazem parte deste movimento folclórico aqui” explica Ana Isabel Freitas na entrevista “live” do LusoJornal. “Estas pessoas falam da sua própria vida, mostram o que fazem, por que razão o fazem e as ideias que defendem, alguns concordam entre si, outros têm ideias mais contraditórias, mas eu tentei que o filme não fosse exatamente sobre o folclore ou sobre o espetáculo, mas sobre os bastidores, sobre todo o trabalho que é feito por detrás, a ligação que essas pessoas têm com Portugal, que é um Portugal quase ancestral, não é exatamente o Portugal de hoje, contemporâneo”.

Para a realizadora, o filme pode ajudar a perceber “as pessoas que fazem parte destes grupos de folclore e as pessoas que vão de férias a Portugal”.

Mas Ana Isabel Freitas não pretende que o filme seja “representativo” da Comunidade. “Na minha perspetiva, nós não podemos pegar num grupo de pessoas e tentar falar por elas, como se elas fossem um todo. Cada pessoa, cada geração, cada indivíduo tem uma visão muito pessoal das razões porque faz isto, porque vai a Portugal no verão ou porque é que não vai a Portugal no verão” conta na entrevista “live”. “As histórias são muito diferentes, quando se fala com alguém que veio nos anos 60 ou 70 que teve que vir a salto, que passou por diferentes dificuldades, que não falava francês no início, normalmente são pessoas que têm uma relação diferente com Portugal e sobretudo com a França, em relação a quem nasceu aqui, a quem viveu aqui, quem andou na escola aqui. E eu falei com pessoas da região parisiense, certamente que é diferente do resto do país”.

O filme conta o que se passa nestes três grupos de folclore, que representam certamente o que se passa em mais grupos portugueses em França. “São pessoas que dedicam uma grande parte da sua vida a estas associações”.

A realizadora concluiu também que a emigração não tem parado, que há muita gente a chegar a França nestes últimos anos. “Muitas das pessoas que integram estes grupos de folclore vieram de Portugal há 8, 9, 14 anos… não são só famílias que começaram há muitos anos ou crianças e adolescentes que praticamente já nasceram dentro do folclore, isso existe, mas não é a totalidade das pessoas”.

Ana Isabel Freitas agradeceu publicamente às mais de 150 pessoas com quem se cruzou durante o ano de 2019. “Eu só tenho a agradecer às pessoas que deixaram que eu as seguisse no dia-a-dia, que abriram, às vezes, as portas das suas próprias casas, que me contaram histórias muito pessoais, sem qualquer contrapartida” disse ao LusoJornal.

 

Uma artista multifacetada

Ana Isabel Freitas é de S. Martinho de Anta, no distrito de Vila Real, a terra de Miguel Torga. Veio para Paris em 2015 porque o namorado conseguiu uma bolsa de doutoramento. “Eu vim para França sem grande plano, ainda estava a acabar o meu mestrado em Lisboa, em desenvolvimento de projetos cinematográficos. Faltava apenas defender a minha tese”.

É uma artista multifacetada, que navega, sem possibilidade de escolha, entre os vários domínios das artes, das artes plásticas ao cinema, passando pela música e pelo teatro. “Eu costumo ter sempre 2 ou 3 projetos em áreas diferentes e tento equilibrar esses meus projetos” conta.

Antes de vir para Paris realizou uma curta-metragem inspirada na sua própria vida, na vida dos avôs, chamado “Uma Vindima”, sobre o trabalho no Douro. Mas quando chegou a Paris foi fazer um estágio de escultura com a artista Eva Jospin, no Louvre.

Morou, numa primeira fase na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Universitária Internacional de Paris. Aliás fez uma primeira exposição na “Cité” que levou também a Portugal. “Eu não vejo propriamente o sítio onde estou a viver como uma restrição a nível de trabalho, tanto nas artes plásticas como no cinema, sendo uma autora independente, falo daquilo que eu conheço e a maioria da minha inspiração vem da minha família, das minhas origens, das lindas paisagens que me rodearam durante a minha vida” diz ao LusoJornal.

Foi durante três anos, “embaixadora” na Cinemateca francesa. “Eu continuo com um pé em Portugal e tenho outro em França. Estou a desenvolver contactos com algumas galerias em França, mas continuo sempre tentar não perder os contactos que fiz em Portugal”.

Neste momento termina as várias versões do filme – a versão para inglês está quase pronta – e depois espera poder mostrar em Paris, o “Lá em Baixo”.

 

Cultura
X