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Ki bêlêza!

Mais uma vez a festa do Rei Momo nos deslumbrou: toda essa profusão de luzes, de cores, ritmos, lantejoulas, entre grinaldas, diademas… e coroas! Rainhas e reis de um dia sonhando, cada um(a), com o tão cobiçado título para “reinar” o ano inteiro. As porta-bandeiras e outras “majorettes”, ki bêlêza nossas crioulas dançando esbeltas e graciosas no compasso dos tocadores…

Todos os anos o carnaval nos surpreende com renovados toques de criatividade e magia. Os “Mandingas” contagiando turistas e passantes nos seus frenéticos desfiles dos últimos domingos antes do entrudo. O desfile de Samba Tropical, na véspera à noite, que todos os anos nos surpreende com renovadas coreografias, fantasias e batucadas.

Magníficas, as batucadas do Carnaval, cada ano mais coloridas, mais ritmadas, mais espetaculares! O gigantismo e a vertigem dos andores alegóricos que só de olhar para eles nos deixam com o credo na boca, lá em cima os dragões cuspindo fogo e outras criaturas fabulosas e colossais…

As fantasias, os trajes reais, simplesmente fantástico!

E nós aqui pasmando, na terra-longe! Olhos fixos num écran pleno de imagens rivalizando de arte e fantasia, crioulas lindas meneando-se ao ritmo da batucada, o povão das “fraldas” (pobres mais que ricos) brincando na rua – é Carnaval, ninguém leva a mal.

E este desassossego da distância… este querer estar e ter que brilhar pela ausência, de repente esta pergunta que nos consome do interior: – “Que estou eu a fazer em terra alheia?”

 

Nos bastidores, os criadores de sonhos

Mas a rua não é senão a vitrina visível do Carnaval, pois a festa do Rei Momo tem dois tempos: o das pessoas que o desenham e lhe dão corpo, e o daquelas que lhe dão luz e visibilidade. Dou comigo a pensar nesses entusiastas discretos e sem rosto, semanas a fio a dar no duro para dar forma e fôlego ao Carnaval. Nos criadores das músicas e outras maravilhas, nessas senhoras incansáveis costurando sonhos, artistas e artesãos serrando, martelando, colando, reciclando. Pessoas que conhecem o frenesim dos estaleiros e ateliers, que até ao último momento zelam, numa azáfama febril, para não haver surpresas no tão esperado dia D. Pessoas que raramente vemos, mas falam por elas suas formidáveis criações, também elas em competição no maior certame de artes, sons e exuberância estética de Cabo Verde. Ou não fosse o Carnaval a mais popular e espontânea das nossas expressões artísticas.

Esses homens e mulheres de sombra merecem reconhecimento. Não sei, porque não vi, se são apresentados publicamente, à margem da aclamação dos reis e rainhas. Não sei se já se pensou em condecorar as melhores costureiras, os criadores mais prolixos, que anos a fio foram imprimindo, desinteressadamente, a sua marca no Carnaval. Espero ao menos que tenham lugar reservado na tribuna de honra!

 

Para quando o Museu do Carnaval?

Uma pergunta, já agora, antes de terminar: o Museu do Carnaval, é para quando? Tantos plásticos e outros lixos sobrevivendo durante séculos na natureza, e as obras do Carnaval condenadas à lixeira? Gente de São Vicente, o que é isso?!

Mas um Museu a sério, não um espaço onde ocasionalmente sejam expostos os trajes mais majestosos (vá lá isso, já é alguma coisa). Podemos pensar num hangar suficientemente amplo para albergar trajes e andores, os registos magnéticos das músicas, os nomes e contribuições dos grandes protagonistas da festa do Rei Momo… Um espaço interativo com salas para reuniões, videoteca, projeções, conferências e debates… para contar a história do Carnaval em palavras e imagens. Seria um museu dinâmico, em renovação permanente: de ano para ano as últimas criações ocupariam o lugar das mais antigas, sendo certo que não haveria espaço suficiente para conservar todas as peças ad eternum. Mais vale um belo andor sobreviver um ou dois anos do que acabar em cinzas na quarta-feira!

Seria um justo reconhecimento aos artistas criadores, os turistas haveriam de apreciar, e as receitas de bilheteira fariam entrar dinheiro para a caixa… para outros carnavais.

 

 

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