Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Octávio Espírito Santo é diretor de fotografia, vive desde 1996 em Paris e foi Presidente da associação Memória Viva. Numa entrevista “live” ao LusoJornal falou do regime de intermitente do espetáculo, evocou o pai que também dedicou uma vida ao cinema e falou de democracia.

Octávio Espírito Santo nasceu em Lisboa em 1956 e desde 1974 que é profissional do cinema na área da imagem. “Comecei como assistente operador e fui progredindo até diretor de fotografia”.

Numa entrevista conduzida por Dominique Stoenesco, explicou que enquanto um fotógrafo tira uma fotografia, o cinema trata 25 imagens por segundo! “Então a nossa profissão é ao mesmo tempo criativa e técnica, sempre à disposição do autor da obra. O diretor da fotografia trabalha em estreita colaboração com o realizador, mas dirige também outras equipas como por exemplo os eletricistas, os maquinistas, os operadores, e discute ainda com os outros chefes de equipa”.

Os diretores de fotografia são, em geral, intermitentes do espetáculo, porque trabalham para vários empregadores. “Pode ser uma opção de vida, mas é sobretudo porque a indústria cinematográfica funciona assim, a produção de cinema, de documentários… Na televisão, na minha visão, deviam ser permanentes, mas eles aproveitam-se também deste regime”.

Porque para Octávio Espírito Santo, ser intermitente do espetáculo não é nenhum estatuto, é um regime.

Octávio Espírito Santo é autodidata, mas desde cedo tirava semanas e por vezes meses – “mesmo sem o regime de intermitente do espetáculo como temos em França” – para tirar cursos nas escolas “porque é importante ter essa formação académica” disse ao LusoJornal.

 

“48” é um filme particular

Quando Dominique Stoenesco evocou o vasto currículo de Octávio Espírito Santo, com 10 longas metragens, 41 documentários, 15 curtas metragens, aos quais se acrescentam filmes para publicidade, filmes para a televisão e outros filmes, Octávio Espírito Santo clarifica que “eu não sou realizador, eu participei nesses filmes, faço parte de uma equipa artística, sou diretor de fotografia, mas não deixo de ser o homem da imagem ao serviço do realizador e eu não sou realizador”.

“Desde que vivo em Paris, tenho menos gente a convidar-me para trabalhar em filmes em Portugal. Longe dos olhos, longe do coração” diz Octávio Espírito Santo. Mas de vez em quando surgem oportunidades, como por exemplo com o filme “48” da realizadora portuguesa Susana Sousa Dias.

“48” ganhou vários prémios em França e é baseado numa série de entrevistas a militantes que tinham sido presos políticos em Portugal. “Ela fez entrevistas a resistentes que já estão com uma idade muito avançada, e é um filme particular pela forma como filmámos as fotografias de época, que eram pequeninas. Foi o primeiro filme onde eu fiz movimento direto na Câmara e foi também a primeira vez que eu fiquei com uma dor nas costas a filmar” diz, a sorrir, o diretor da fotografia. “É um filme muito interessante, que retrata bem a violência do fascismo contra a liberdade e contra os jovens que lutaram por essa liberdade”.

Octávio Espírito Santo evocou também o seu último projeto com o filme “Les petits maîtres du Grand Hotel” de Jacques Deschamps, que saiu nos cinemas franceses no fim do ano passado. “O realizador é, antes de mais, um amigo. Eu encontrei-o num filme em que eu era o diretor de fotografia e a partir de 2006 eu trabalhei em todos os projetos dele, até hoje” explicou ao LusoJornal. “É um ótimo filme, como um documentário, muito alegre, aliás a crítica foi muito elogiosa”.

 

Henrique Espírito Santo, o pai

O pai de Octávio Espírito Santo faleceu em janeiro deste ano, com 87 anos. Teve um papel muito importante no renovar do cinema português, nos anos 60 e 70.

“É por ele que que eu também estou no cinema” diz com emoção. “Ele foi um autodidata nos anos 50 e esteve muito ligado ao movimento dos cineclubes em Portugal, nomeadamente em Lisboa. Conheceu muita gente do novo cinema português dos anos 60”.

Henrique Espírito Santo foi ativista antifascista, esteve preso em 1963 e sempre foi militante do Partido Comunista Português. “Antes de morrer, o último gesto que me fez, foi levantar o punho cerrado” conta Octávio Espírito Santo.

Octávio Espírito Santo lembrou que o pai trabalhou com muitos realizadores, como por exemplo Luís Filipe Rocha, João Mário Grilo e até Manoel de Oliveira. “Podemos dizer que ele trabalhou com todos os realizadores da nova vaga do cinema português, e depois trabalhou em produção com José Fonseca e Costa.

 

Associação Memória Viva

Octávio Espírito Santo também foi Presidente da associação Memória Viva e continua a ser membro dessa associação de preservação da memória da emigração portuguesa para França. “É uma associação que não é muito grande, que não está fechada no comunitarismo e que nasceu a partir de uma ideia do realizador José Vieira que fez muitos filmes sobre a história da emigração portuguesa” explica ao LusoJornal. “E eu participei nesse grande debate sobre o movimento dos migrantes, a preservação da memória da imigração portuguesa, num espírito de amizade, de solidariedade e num espírito intercultural”.

Mas Octávio Espírito Santo tem também uma atividade intensa na vida do bairro onde reside. “Trabalho principalmente na luta pela preservação do bairro de Belleville, que é um bairro popular de Paris”. Luta atualmente para que um antigo museu possa ser recuperado e transformado numa Casa do povo. “Este é um projeto entre vizinhos e vizinhas, com diversos quadrantes políticos e que se interessam pelo social, pela ecologia, pelo humanismo… “ diz ao LusoJornal. “Queremos guardar essa estrutura familiar mista do bairro, com muitas comunidades aqui, pessoas de muitos horizontes”.

Octávio Espírito Santo tem esperança que a luta atual possa resultar já que naquele bairro de Paris ganhou uma coligação que integra várias tendências da Esquerda. Considera que a segunda volta das eleições municipais tinha de ter lugar, mas lamenta a enorme taxa de abstenção. “Em 25 anos é triste ver um país como este, com uma formação política enorme, a cair. É uma coisa confusa. Eu estou muito inquieto por causa da austeridade, do problema da repressão policial, da quinta República… Em Portugal temos um regime parlamentar e eu defendo a sexta República em França. Aqui é o Presidente que decida tudo, e nós preferimos que seja o Parlamento. O facto do povo não votar mostra que as pessoas não querem participar nesta coisa que é a 5ª República”.

 

 

Cultura
X