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O pianista Ricardo Vieira teve dezenas de concertos anulados durante este período de pandemia de Covid-19. Só uma digressão de dois meses na China pôs fim a 40 concertos em todo o país, mas recusa fazer concertos online por respeito para com os técnicos dos teatros.

Ricardo Vieira chegou a Paris em 2008 depois de ter estudado música em Santa Maria da Feira, onde nasceu, e em Castelo Branco. “Sempre fui apaixonado pela França, Paris sempre me atraiu artisticamente, aliás atrai muitos artistas”.

O jovem pianista escreveu a dois professores que viviam em Paris e que aceitaram trabalhar com ele. Numa entrevista “Live” ao LusoJornal conta como chegou à capital francesa sem ter reservado hotel e conta também como teve de ser baby-sitter, guardando três crianças, filhos de uma produtora de televisão, para poder pagar os seus estudos.

“O nível lá em Portugal é bastante bom, eu tenho muitos colegas em Portugal, mas era importante vir estudar no estrangeiro, foi um desafio, uma nova oportunidade e eu gosto de conhecer novos horizontes. Mesmo se gosto bastante de Portugal, também gosto muito de grandes cidades e Paris é uma cidade encantadora. Paris tem uma dinâmica única que me atrai bastante e eu gosto muito deste dinamismo que há em Paris” disse ao LusoJornal.

Depois de ter aprendido a falar francês com as três crianças que guardou e com as habilitações que já tinha, conseguiu ingressar como professor na escola Yamaha, começou a ter alunos privados e foi integrando também os Conservatórios. “Pouco a pouco fui podendo escolher onde eu queria trabalhar, mas foi sempre uma escolha onde a minha ausência para concertos não fosse um problema”.

 

Tomohiro Hatta o parceiro japonês

Ricardo Vieira encontrou em Paris o pianista japonês Tomohiro Hatta. “Fomos vizinhos numa residência para artistas em Paris e fomos alunos do mesmo professor, na mesma escola”. Começaram a tocar juntos e há mais de 10 anos que formaram o grupo MusicOrba que os leva a tocar em todo o mundo.

Em 2010, o ano em que Portugal e o Japão comemoravam 150 anos de amizade, foi também um ano de lançamento para os dois jovens pianistas. “A Embaixada de Portugal em Paris soube que nós tocávamos juntos é recebemos um convite para tocar na presença do Embaixador do Japão em França. Depois também fomos tocar a Portugal, convidados pela Embaixada do Japão em Lisboa e fomos ao Japão tocar a convite da Embaixada de Portugal. Tocámos música portuguesa, nomeadamente de Fernando Lopes Graça, de António Vitorino d’Almeida e também de compositores japoneses e franceses porque a França é o país que nos reuniu”.

No início ainda tinham momentos a solo durante os concertos, mas agora, há 10 anos que fazem concertos integralmente a quatro mãos, percorrendo o mundo.

Durante a entrevista ao LusoJornal lembrou o concerto de Kátia Guerreiro no Olympia de Paris, que os convidou para tocarem com ela. “Depois, quando nós fomos fazer um concerto nas Caldas da Rainha, convidámos a Kátia Guerreiro para vir cantar connosco”.

 

Dois artistas internacionais

Para além da França, Portugal e Japão, o duo-Ricardo Vieira / Tomohiro Hatta já tocou nos Estados Unidos, na África do Sul, em Cabo Verde, na Turquia, na Eslovénia, na Índia ou na China…

Mas com a chegada a pandemia de Covid-19, tudo parou. “Todos os nossos concertos foram anulados. Estou a falar de mais de 50 concertos. Ainda esta manhã recebi um e-mail porque tínhamos um concerto a 4 mãos em Paris, no dia 18 de outubro, dia do meu aniversário, e foi anulado” conta ao LusoJornal. “Tínhamos dois meses de digressão na China, de 9 de julho a 27 de agosto, com concertos todos os dias, 6 dias por semana, eram mais de 40 concertos e foram todos cancelados”.

Já não era a primeira vez que o duo tocava na China. “A última vez que fomos à China foi há 2 anos, fizemos 20 concertos, o público felizmente gostou do nosso trabalho e por isso, desta vez tínhamos 40 datas. Ficamos muito tristes por estes concertos terem sido cancelados”.

Mas o “mais grave” é a ausência de visibilidade. “Está tudo suspenso, nós temos alguns agentes, eu falo com eles e eles não têm nada, nem sabem quando vão ter. Apenas me dizem que os nossos concertos na China foram adiados para 2022 e que talvez em outubro vamos tocar na Turquia, mas também ainda não é certo” diz Ricardo Vieira preocupado.

 

O “plano B” são as aulas de piano

“Nós tivemos sempre a perspicácia de pensar que este sucesso de 10 anos de concertos um dia podia parar e nós devíamos ter sempre um “plano B”. “Por isso é que nós nunca parámos de trabalhar, nunca parámos de dar aulas” explica Ricardo Vieira. “Antes de entrar nas escolas, o Tomohiro Hatta trabalhou num restaurante, eu era baby-sitter e nós passávamos do restaurante e do baby-sitting para o Olympia ou para a Salle Pleyel. Tivemos sempre a noção que a nossa profissão não tinha estabilidade, que o sucesso podia cair e que tínhamos de ter cuidado com isso”.

Durante o período de confinamento, Ricardo Vieira nunca deixou de dar aulas de piano, mas fê-lo à distância, online. “O ensino do piano à distância é ocasional e nunca é tão bem feito como o ensino presencial, mas neste momento não tínhamos qualquer outra escolha”.

Ainda durante o confinamento, os dois pianistas fizeram um arranjo simples a 4 mãos, com músicas da Disney e fizeram um concerto online para crianças. “Era uma ação solidária para crianças e para pessoas que moram em apartamentos muito pequenos, para famílias numerosas” conta Ricardo Vieira. “Fiz este concerto porque era solidário, mas nós não queremos fazer concertos online porque nós precisamos do público e até pelo respeito por aquelas que fazem parte da nossa equipa, que são as pessoas que estão nas bilheteiras dos teatros, nas luzes, no som,… Recusamos fazer concertos online porque não é justo para com os nossos colegas, há muita gente envolvida em cada um dos nossos espetáculos”.

Mas durante o confinamento, Ricardo Vieira aproveitou também para fazer desporto. “Durante o período de confinamento estivemos sempre a trabalhar, mas aproveitámos para fazer desporto. O Tomohiro Hatta é muito desportista, gosta de correr, mas eu nunca faço nada, sou mesmo malandro, não sou como os meus irmãos ou como o meu cunhado que é super desportista, eu não faço nada, sou um preguiçoso, mas durante o confinamento fiz desporto e até aprendi a andar de bicicleta, era uma coisa que eu não sabia fazer”.

 

A promoção de um CD… adiada

O período de confinamento também “estragou” a promoção do último trabalho discográfico de Tomohiro Hatta, produzido por Ricardo Vieira. Foi um CD gravado nos Estados Unidos, num estúdio reconhecido, e que foi apresentado num concerto em Paris no dia 12 de janeiro.

“Nós tínhamos previsto fazer uma promoção do disco durante este ano inteiro. No dia 12 de janeiro fizemos o concerto de lançamento em Paris, mas a partir daí foi tudo cancelado. O nosso grande projeto para este ano era promover este CD. A produção foi toda por água abaixo, foi tudo cancelado” explicou Ricardo Vieira.

O pianista concluiu a entrevista ao LusoJornal dizendo que “nós temos outros projetos, mas agora temos que esperar para ver aquilo que vai dar”.

Ricardo Vieira já foi cronista do LusoJornal e também animou, por um tempo, um programa cultural na rádio Alfa.

 

 

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