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Secretária de Estado das Comunidades foi a Bordeaux ouvir queixas sobre ensino de português

LusoJornal / Carlos Pereira LusoJornal / Carlos Pereira

O Cônsul Geral de Portugal em Bordeaux organizou este domingo, uma reunião entre a Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, e elementos ativos da Comunidade portuguesa. Os problemas de ensino da língua portuguesa dominaram a reunião.

Momentos antes, o LusoJornal tinha perguntado a Berta Nunes como decorreu a reunião que teve com a Coordenadora de ensino de português em França, Adelaide Cristóvão, na presença de um dos Administradores do Instituto Camões, e a Secretária de Estado mostrou-se contente com os resultados que lhe foram apresentados, referindo um aumento de alunos e um aumento de professores de português do Instituto Camões a lecionar no ensino básico em França.

Mas foi uma outra realidade que Berta Nunes descobriu em Bordeaux onde apenas lecionam dois professores de português em toda a região Aquitaine, um deles estava presente na reunião.

Valdemar Félix Camarinha, o Conselheiro das Comunidades eleito pela área consular de Bordeaux denunciou a falta de professores de português em toda a região e disse que “a França não respeita os acordos bilaterais em matéria de ensino”.

Fernanda Alves, Maire Adjointe na cidade de Cenon destacou a importância da aprendizagem da língua portuguesa e pediu esforço das Instituições portuguesas, tal como Clara Azevedo, Conselheira Departamental que apelou para que se resolva a situação.

Felisbina Seixas, da associação Lusofonie de Pau disse que antes havia 4 professores de português no ensino básico naquela cidade francesa e agora não há nenhum, Álvaro Pimenta da associação de Léognan confirma que a procura é grande, “vêm bater à porta da associação, mas nós já damos aulas aos adultos e não temos a possibilidade de criar aulas para crianças. O Instituto Camões já nos mandou um professor e depois retirou”.

João Neves, Vogal do Conselho Diretivo do Instituto Camões, também presente na reunião, disse que houve uma Comissão mista entre os dois países, em outubro, onde foram identificados alguns problemas, mas parecia também ele ultrapassado pelas queixas apresentadas. Lamentou que só agora essa Comissão mista tivesse tido lugar quando o último Protocolo entre os dois países, já foi assinado em 2017.

Em 2017 houve efetivamente dois Protocolos assinados entre Portugal e a França, em matéria de ensino de português. O primeiro foi assinado com a então Ministra Najat Vallaud-Belkacem e o segundo, umas semanas depois, já com o Governo do Presidente Macron, assinado com o Ministro Jean-Michel Blanquer. Mas curiosamente, os dois Protocolos foram assinados pelo Ministro português da Educação, enquanto o ensino de português no estrangeiro está sob a responsabilidade do Ministro dos Negócios Estrangeiros!

A Comissão mista entre a França e Portugal só reuniu no mês passado, porque Portugal também só ratificou este acordo há poucos meses, cerca de dois anos depois de o ter assinado em Paris!

 

Escolas não divulgam formulários

Os participantes na reunião disseram que as escolas não divulgam os formulários de inscrição das crianças para os cursos de língua portuguesa e por isso, oficialmente, não há alunos a solicitarem o ensino da língua portuguesa. Isabel Pereira Vincent, professora no ensino francês, confirmou isso mesmo. “Na minha escola agora já distribuem os formulários, porque eu pedi, mas nas outras escolas os formulários não são distribuídos” disse na sua intervenção. “As diretivas têm de vir de cima, do Ministério em Paris” acrescentou Manuel Dias que foi, durante algum tempo, Vice-Presidente de uma comissão na Academia de Bordeaux sobre o ensino de línguas estrangeiras.

A situação preocupou a Secretária de Estado Berta Nunes, que apelou a uma “ação coordenada” para que os formulários circulem na Comunidade portuguesa. Mas ao Instituto Camões, “convém” também que não surjam mais inscrições, porque todos os anos deixa centenas de crianças sem aulas de português, apesar de o solicitarem, porque não tem em França professores em número suficiente para atender a todos os pedidos. Berta Nunes mostrou-se surpreendida com esta situação, que não lhe tinha sido reportada na reunião que teve na Coordenação de ensino, em Paris, mas o responsável pelo Instituto Camões confirmou “situações identificadas”.

 

ADEPBA considera situação “preocupante”

As queixas sobre o ensino da língua portuguesa não se limitaram apenas ao ensino básico. Berta Nunes já tinha conhecimento da recente reforma do ensino liceal francês e da dificuldade em ter continuidade no ensino de português entre o ensino básico e o ensino secundário. Martine Fráguas, da associação ADEPBA disse que “a situação é mesmo preocupante” e apelou para que haja um trabalho conjunto, para dar à língua portuguesa o lugar que ela merece em França. Berta Nunes quer isso mesmo, quer que os professores pagos por Portugal e os professores do Ministério francês, possam encontrar-se, trabalhar juntos. “Só assim, poderão encontrar soluções juntos”. João Neves salientou o “importante trabalho” da ADEPBA e disse que um representante da associação já tinha participado recentemente numa iniciativa organizada pelo Instituto Camões.

Ana Maria Torres, Conselheira municipal em Bordeaux disse que a promoção da língua passa também pela promoção cultural. Queixou-se da programação da RTP internacional e disse que “nós aqui praticamente não temos ações culturais para além dos eventos de cultura popular organizados pelas associações”. Na sala estavam também presentes professoras universitárias, que também se queixaram da precariedade dos contratos dos professores, “onde apenas quatro são titulares” e do Departamento de português que, sofre diretamente a falta de alunos e tem vindo a perder força.

 

Berta Nunes faz balanço positivo

“Faço um balanço muito positivo desta reunião, porque assim compreendemos melhor onde estão os pequenos problemas, as pequenas areias na engrenagem, que fazem com que as coisas que deviam funcionar, não funcionam” disse ao LusoJornal a Secretária de Estado das Comunidades. “Aprendi muito aqui e compreendo porque razão o anterior Secretário de Estado, José Luís Carneiro, dava tanta importância à escuta da Comunidade, porque é aqui que nós podemos encontrar os problemas, as queixas, as reclamações, e só ouvindo os problemas, as queixas e as reclamações e compreendendo porque é que estes problemas existem, é que podemos encontrar as soluções”.

Na reunião estavam também dirigentes associativos, alguns vindos de longe – de Pau, Oloron Sainte Marie ou Fumel, por exemplo – o novo Presidente do Portugal Business Club de Bordeaux, o Presidente da Academia do Bacalhau de Bordeaux, presidentes de várias associações, autarcas,…

“Eu acho que é extremamente relevante que a senhora Secretária de Estado tenha escolhido a França como primeiro destino, isso é desde logo revelador da importância desta Comunidade porque é das Comunidades mais antigas e ficamos muito gratos por ela ter também incluído na sua visita, Bordeaux. Há 5 Consulados Gerais em França e ela decidiu visitar Paris, Bordeaux e Lyon, o que nos deixa muito satisfeitos” disse ao LusoJornal o Cônsul Geral Marcelo Mathias. “É uma forma de valorizar a nossa Comunidade aqui na região, porque eu acho que merece ser valorizada e é uma maneira também de reforçar o empreendedorismo da Diáspora portuguesa e de acentuar aquele que é o papel diário dos Consulados nestas respetivas áreas de jurisdição. É não só uma visita oportuna, mas muito bem recebida pela Comunidade”.

 

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