LusoJornal | Mário Cantarinha

Champigny-sur-Marne celebrou a memória portuguesa com presença de Marcelo Rebelo de Sousa


O antigo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, participou, no fim de semana passado, juntamente com muitas outras personalidades locais, numa cerimónia marcada pela emoção, pela memória e pela reafirmação dos laços históricos entre a comunidade portuguesa e o território francês. No Parque do Plateau, onde outrora existiu o maior bidonville português de França, milhares de pessoas reuniram-se para homenagear a história da imigração, inaugurar o busto de Linda de Suza e assinalar o décimo aniversário do monumento dedicado a Louis Talamoni, o antigo autarca que apoiou as famílias portuguesas nos anos mais difíceis.

O Maire Laurent Jeanne abriu a cerimónia recordando que “Champigny é verdadeiramente a cidade amiga dos portugueses”, sublinhando que este território foi, nos anos 60, “a segunda capital de Portugal”, quando entre 15 e 20 mil imigrantes viviam no bidonville do Plateau. O autarca evocou as condições de vida precárias – “um único ponto de água, ausência de eletricidade, barracas de madeira e chapa” – mas também a solidariedade que marcou a Comunidade. “Este lugar, apesar da dureza, gerou uma fraternidade autêntica entre famílias portuguesas e francesas”, afirmou.

Destaque ainda para a presença do antigo Embaixador de Portugal em França, António Monteiro, da Cônsul-Geral Adjunta de Portugal em Paris, Mafalda Paiva de Oliveira, do Deputado Carlos Gonçalves, do antigo Deputado Paulo Pisco… Todos estiveram também junto ao monumento do escultor Rui Chafes de homenagem aos Portugueses que passaram por Champigny. A Banda Filarmónica de Paris ajudou a dar vida a este momento imaginado por Valdemar Francisco da associação Les Amis du Plateau.

A presença de Marcelo Rebelo de Sousa foi recebida com entusiasmo. O antigo Presidente português recordou que Champigny é um “lugar carregado de história e de emoção”, onde tantas famílias portuguesas “conheceram a precariedade, a espera e a incerteza, mas também a fraternidade e a vontade de construir uma vida melhor”. Marcelo sublinhou ainda o papel decisivo de Louis Talamoni, “que deu voz aos que não eram ouvidos” e que transformou Champigny numa terra de acolhimento e dignidade.

O Embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, destacou que o Val-de-Marne continua a ser “o primeiro território histórico da presença portuguesa em França” e que a Comunidade lusodescendente é hoje “um dos grandes pilares da relação vital entre os dois países”. Sublinhou ainda a importância do ensino da língua portuguesa, da cultura e dos intercâmbios entre jovens, lembrando que a cooperação franco-portuguesa ganhou novo impulso com o Tratado de Amizade e Cooperação assinado em 2025.

A cerimónia teve também um forte envolvimento associativo. Fernando Philippe, Presidente da Associação Portuguesa Sociocultural e Recreativa (APSCR), falou com emoção do papel das associações na preservação da memória e na transmissão da identidade luso-francesa. “Somos herdeiros das nossas raízes e desta dupla cultura que é a nossa riqueza”, afirmou, agradecendo o trabalho conjunto com os “Amis du Plateau”, associação que há uma década mantém viva a história do bidonville.

O momento mais simbólico do dia foi a inauguração do busto de Linda de Suza, figura icónica da emigração portuguesa. Chegada a França com a célebre “valise en carton”, tornou-se um símbolo de coragem, trabalho e esperança. Laurent Jeanne recordou que a cantora deu o seu último concerto em França precisamente em Champigny, em 2019, e que o município quis perpetuar a sua memória ao dar o seu nome a uma rotunda junto ao futuro metro.

A cerimónia foi também uma celebração da amizade franco-portuguesa, marcada por décadas de convivência, trabalho e integração. O Presidente do departamento, Olivier Capitanio, lembrou que os descendentes dos habitantes do Plateau são hoje “empresários, professores, médicos, autarcas, artesãos, funcionários públicos”, contribuindo de forma decisiva para a vitalidade do Val-de-Marne. “Transformaram uma história de sofrimento num exemplo de sucesso, transmissão e esperança”, afirmou.

Entre discursos, memórias e homenagens, o Parque do Plateau tornou-se novamente um lugar de encontro e identidade. A festa da sardinha, que decorreu em paralelo, reuniu milhares de pessoas num ambiente de música, gastronomia e convívio, reforçando a ideia de que Champigny continua a ser um dos grandes centros da vida portuguesa em França.

A presença de Marcelo Rebelo de Sousa deu ao evento uma dimensão histórica. “As Comunidades portuguesas são um pilar da nossa identidade nacional”, recordou, sublinhando que a diáspora é parte essencial da história e do futuro de Portugal. E concluiu com uma mensagem que ecoou entre os presentes: “Viva Portugal, viva Champigny, viva a amizade franco-portuguesa”.

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