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1. Crime contra a humanidade

No passado dia 10 de maio, tive o privilégio de participar em mais uma cerimónia comemorativa da abolição da escravatura em França.

170 anos volvidos sobre o decreto de abolição (27 abril de 1848), a França vive em paz com o seu passado esclavagista porque teve a coragem de o reconhecer e assumir num honroso gesto de mea culpa: em 10 de maio de 2001 era votada no Palais Bourbon (sede do Parlamento) a lei nº 2001-434, ou lei Taubira (de Christiane Taubira, Deputada pela 1ª Circunscrição da Guiana francesa que pleiteou o projeto). Ainda por decisão parlamentar, o dia 10 de maio passou a ser, a contar de 2006, «la Journée commémorative du souvenir de l’esclavage et de son abolition».

Tenho orgulho em residir numa terra que esteve sempre na vanguarda da história universal, a primeira de entre as nações a gravar a escravidão e o tráfico negreiro no mármore dos crimes contra a humanidade.

Não o fez Portugal, pioneiro da transatlantização do tráfico. Nenhuma declaração universal nas Nações Unidas, que por diversas vezes condenou o trabalho e o comércio escravos!

Do mundo arabo-muçulmano não era de esperar, aliás subsistem escassos vestígios humanos desse passado tenebroso em que escravos varões eram emasculados, reduzidos a eunucos, privados de descendência!

Tão-pouco partiu da Espanha ou da Holanda uma condenação da escravidão enquanto «crime contra a humanidade»… nem mesmo do Reino-Unido, outro grande campeão do execrando quão lucrativo comércio triangular, mais tarde paladino da abolição por razões mercantis mais do que humanitárias.

Se a revolução industrial foi uma etapa importante no caminho da abolição, é porque no país das usinas e da navegação a vapor, o mais importante, no século XIX, era assegurar o escoamento da sua produção. Importava igualmente travar o fluxo de mão de obra escrava em direção aos Estados Unidos e outras nações recém-independentes das Américas, por conseguinte a sua economia, para não se armarem em concorrentes no mercado mundial!

A porta da liberdade foi-se entreabrindo à medida que o mundo capitalista realizava que sustentar um escravo custava mais caro do que remunerar um operário!

 

2. A memória ao serviço da história

Hoje, a memória da servidão e do tráfico negreiro emerge – deve emergir – da penumbra, não para alimentar rancores e ressentimentos porque a escravatura não têm raça nem cor.

Se um processo fosse possível, era a humanidade inteira a prestar contas no banco dos réus! Seria um processo planetário.

A memória da servidão deve emergir sim, não para cobrança de uns sobre os outros, mas para melhor compreender a história e exorcizar fantasmas do passado.

Em França essa memória recebeu ‘droit de cité’ em 10 de maio de 2001.

Mas a memória será vã, e com ela as declarações, se a humanidade não agir pelos homens e mulheres de condição servil que em pleno século XXI ainda sofrem às mãos dos que os trazem cativos. A servidão só foi abolida no Paquistão em 1992! Foi proibida no Níger em… 2003!!! Ainda hoje se fala de práticas esclavagistas na Mauritânia e no Sudão.

A humanidade, se não agir, perde a face!

 

3. Uma realização com parcerias publico-privadas…

E nós, Caboverdianos, que seria feito da nossa memória escravocrata se não fossem uns historiadores e pesquisadores abnegados e laboriosos, remunerados uns, diletantes outros?

Retomando aqui um recado que enviei há tempos para quem quisesse ouvir, volto a perguntar: «quem se lembrou, até hoje, de erigir um memorial ao nosso antepassado escravo que construiu esta nação? Quem decretou um dia de memória ou de reflexão?»

Se eu tivesse algum voto na matéria, quem sabe a pergunta tivesse encontrado algum eco. Talvez, em algum Gabinete camarário ou no Ministério da Cultura, andasse alguém a refletir num memorial para assinalar ao mundo que também somos uma nação caldeada nas agruras da servitude… mas uma nação livre de complexos, em paz consigo própria, com a sua história e com o mundo. E que bela mensagem enviaríamos nós ao mundo!

Uma estela, uma estátua, um obelisco? Seja lá o que for, imagino um memorial de grande envergadura e atratividade turística, na Cidade-Velha ou na capital do país. Vejo-o elevando-se (por exemplo) do ilhéu de Santa Maria, integrado na requalificação daquele espaço que será a porta de entrada da cidade da Praia.

Verbas, recursos? Não vejo essa realização a depender unicamente dos nossos impostos! Vejo-a, isso sim, tributária de parcerias publico-privadas. Por exemplo, com o promotor estrangeiro que obteve a concessão do ilhéu. Acredito que ele teria a ganhar com a visibilidade e a atratividade turística do memorial.

E o que é que ganharíamos, nós-outros? A mesma coisa que David Shaw, e mais um bónus: uma marca NOSSA no ilhéu. Vá lá isso, para não ser visto como um «enclave» estrangeiro às portas da capital!

 

4. … ou com recurso à UNESCO

Também vejo com bons olhos uma parceria com a UNESCO. Com a Cidade Velha inscrita na Lista do Património Mundial, a UNESCO não haveria de regatear apoio a um projeto de alcance universal, nem faltariam argumentos para convencê-la. Senão, vejamos:

Falar da Cidade Velha, é falar do tráfico negreiro desde os finais do século XV, quando a tristemente célebre ilha de Goré ainda não estava no circuito transatlântico.

É falar do encontro de povos de díspares origens que nas nossas ilhas iniciaram, desde 1462, uma aventura humana jamais vista: a síntese de dois mundos e suas múltiplas culturas no meio do Atlântico!

É falar da Rota do Escravo, projeto transnacional adotado pela UNESCO na conferência-geral de 1993 (sob proposta do Haiti e do Benim).

Ademais, devemos ser dos raros países com quem a UNESCO insiste para apresentar projetos e reclamar financiamento. A UNESCO pede-nos para pedirmos, acreditem!… E o património é o melhor pretexto.

Este «recado» cairá em orelhas moucas.

Infelizmente no nosso país, não se dá ouvidos a quem não tem voto no Sistema. Ideias próprias, opinião crítica, chega para lá! Para que viva o Sistema, perde o país…

Mas mais um recadinho, não custa nada.

 

 

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