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Somos nós, os Portugueses no estrangeiro, geralmente só lembrados pelo nosso Governo em efemérides como o 10 de Junho ou quando se realizam eleições.

E desta vez nem isso, porque a pandemia pôs termo à pouca atenção de que já éramos alvo.

Se os serviços consulares eram maus, ficaram piores. Se o ensino da Língua e Cultura Portuguesas cada vez é mais para estrangeiros, gratuito, com os cada vez menos alunos portugueses encafuados em salas com todos os níveis de escolaridade à mistura, um ensino sem qualquer qualidade mas de pagamento obrigatório, os que em Portugal se preocupam com isso já constituem exceção.

E agora temos as eleições para a Presidência da República. Ou melhor, não temos, no estrangeiro. E não temos porque não nos deram condições para isso.

Em Portugal pensaram em todos, nos presos, nos confinados, nos que se encontravam fora da sua freguesia.

Mas no estrangeiro, onde a pandemia também grassa, os Portugueses foram esquecidos, porque a adaptação do processo eleitoral a uma situação deveras grave e excecional foi zero.

Será que estão à espera que com todas as restrições atuais, por exemplo a proibição de se deslocar a mais de 15 km da área de residência, o recolher obrigatório às 18h, 19h ou 20h, conforme os países, as pessoas se vão deslocar às mesas de voto e fazer centenas e centenas de quilómetros para lá chegar? E isto sem falar no perigo de contágio…

Será que no nosso país natal continuam a desconhecer a extensão das áreas consulares? A área consular de Estugarda, na Alemanha, tem uma área superior à de Portugal continental. É como esperar que um residente em Braga vá votar a Tavira, à custa do seu tempo, do seu dinheiro, e agora também, talvez, à custa da sua saúde…

E em França, assim como em muitos outros países das Comunidades, há inúmeras situações semelhantes.

Consta ter havido pedidos para que, nos casos citados acima, se constituissem mesas de voto em locais mais acessíveis, mas tal foi recusado, assim como foi recusado o voto por correspondência, ao que parece dava muito trabalho e saía caro repetir o procedimento das passadas eleições legislativas.

E o voto para as eleições presidenciais é, em princípio, presencial. Mas quem estava no estrangeiro podia votar à distância desde que estivesse recenseado em Portugal.

Só para aqueles que estão recenseados no estrangeiro é que não houve apelo nem agravo, nem a mínima exceção dentro de uma situação desagradavelmente excecional.

Quanto à campanha eleitoral, se em Portugal foi discreta e mais através dos meios de comunicação e redes sociais, o que é compreensível para evitar infeções, no estrangeiro foi discretíssima, isto é, quase nem se deu por ela.

Houve, claro, os usuais debates políticos televisivos, mas já pouca influência têm, pois atualmente pode vender-se um Presidente como um carro ou um refrigerante. A vitória pertence aos indivíduos com grande impacto mediático, se dominam ou não a matéria é de somenos importância.

O cidadão é que corre o risco de se tornar cada vez mais irrelevante, como sucede com os Portugueses no estrangeiro, cujos votos pouco contam, se é que contam.

Já em outubro passado contaram muito pouco, antes da contagem final já estavam a formar Governo…

E, no meio de tudo isto, o que fazem, o que fizeram, o que andam a fazer os senhores Deputados da emigração, incumbidos de se ocupar dos nossos interesses mas que mais parecem estar fortemente afetados pelo vírus CSMP – Cegos, Surdos, Mudos e Paralíticos – porque não se ouvem, não nos ouvem e não agem?

O nosso futuro, e não só no estrangeiro, parece ser o de nos tornarmos consumidores acríticos, seja de telemóveis, detergentes ou políticos, mais ainda estando assolados por um perigo que não podemos ver, nem tocar, nem dominar, mas que tem terríveis consequências.

A insegurança, a desconfiança, o medo e a falta de esperança concreta num futuro melhor, dominam o nosso dia a dia.

E, no meio desta pandemia e pandemónio, que fizeram os nossos governantes? Ouviram-nos, por acaso, mostraram algum interesse em nos ouvir? De modo algum. Ser capaz de ouvir os outros é uma competência difícil, que, como se vê, os excelentíssimos senhores não dominam.

 

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