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Mário caminhava pela estrada que o levava até à Póvoa do Varzim. Perdido nos seus pensamentos de jovem de 17 anos de idade, caminhava e pensava na família que deixava para trás – mãe e irmãos que viviam na sua pequena aldeia junto ao mar.

O pai tinha partido, há dois anos, para a pesca do bacalhau, lá para a Gronelândia e agora era a sua vez de procurar também trabalho e iniciar a sua vida, ajudando a família a subsistir.

“E se tentasse também inscrever-me na pesca do bacalhau? Parece que se ganha lá bom dinheiro. O meu pai vai mandando algum, de vez em quando, mas só no fim da campanha é que recebe todo”.

Mas mudou de ideias: “será melhor tentar outra coisa”.

O tempo do serviço militar estava a chegar. O jovem Mário teve a ideia de se oferecer como voluntário e assim ganhar um ano de tempo. Pensado e decidido, foi no quartel de Viseu, o 14°, que assentou praça. Também ali fez a recruta e tirou a especialidade de cozinheiro. Depois foi para Vouzela onde foi promovido a Cabo cozinheiro.

Passados alguns meses chegou a ordem de partir, mobilizado para Angola, decorria o ano 1967. A sua Companhia embarcou no barco Niassa, em junho de 1967, e nesse mesmo ano, ainda descobriu duas grandes regiões de Angola, as cidades do Luso, a leste, de Benguela e mais tarde Silva Porto. A sua estadia em terras de Angola durou de 1967 a 1970, onde fez amigos e criou boas recordações.

“Como cozinheiro, eu não estava exposto aos combates, e aos riscos de emboscadas quando a minha companhia partia em missão de mato. Tenho boas recordações com os amigos desses tempos, e que conservei durante muitos anos. Até já mesmo no civil nos reencontrávamos para confraternizarmos”.

Quando foi desmobilizado, em fins do ano 70, ao chegar a Lisboa ouviu falar da possibilidade de se poder partir para a Alemanha ou França, trabalhar. Então dirigiu-se à rua da Junqueira onde existia a famosa Junta da Emigração.

Ali foi-lhe proposto um contrato de soldador. “Eu não sabia nada dessa profissão. Fui então alistar-me na CUF, num curso de soldador, que obtive com sucesso ao fim de doze meses, mas onde tive de pagar as aulas de formação”.

Foi durante este formação que travou conhecimento com Álvaro. Como ele, também tinha regressado do ultramar, e também procurava partir para o estrangeiro com a mesma profissão.

– Oh pá, tu és do norte? perguntou Mário.

– Sim, sou de Paços de Ferreira. E tu, de onde vens?

– Somos quase vizinhos, sou da Póvoa.

– Então conseguiste o curso de soldador? Eu também. Já cá canta.

– Foi isso mesmo. E agora vou ver se vou até a Alemanha. Parece que se ganha lá bem!

– Olha que também me interessa. Onde é que arranjaste essa possibilidade?

– Foi na Junqueira, na Emigração. Têm lá contratos de trabalho. Queres lá ir ver?

– Não digo que não. Se pudesses lá chegar comigo…

– Claro que sim. Amanhã tenho que lá ir levar os papéis do meu curso e o atestado de soldador, vem comigo.

– Pois vou. A que horas vais?

– Temos que lá estar às oito horas, porque depois há sempre gente a ir lá procurar trabalho. Não te esqueças de levares já alguns papéis. O que tiveres a mão.

 

No dia seguinte, como combinado, os dois jovens encontram-se na rua da Junqueira, em frente da porta da famosa Junta da Emigração. Depois de algumas trocas de informações, o Mário obtém o seu bilhete de comboio e as moradas onde se devia dirigir na cidade de BrunBayer, no norte da Alemanha. Teria que estar lá dentro de oito dias para dar início ao trabalho de soldador de tanques e de grandes canalizações. O seu amigo Álvaro acabou de completar o seu processo de pedido de trabalho no dia seguinte. E no final, iria ser seu companheiro de trabalho e de viagem em terras de Alemanha.

 

Na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, embarcam com toda a papelada necessária para a viagem no comboio dos emigrantes. Era perto da meia-noite quando a composição se lançou ao assalto da viagem férrea que se completaria com cerca de dois mil e quinhentos quilómetros, até chegarem à Alemanha, um país que estava em reconstrução e que necessitava de muita mão de obra, especializada ou não.

– Acho que não vamos ter problemas para fazer a viagem, sem histórias de fronteiras, pois temos tudo o que é necessário, disse Mário sorrindo.

– Espero que sim, pois já ouvi alguém dizer que ia tentar, mas que não tinha nenhum documento, nem passaporte, nem nada. Vai mesmo arriscar um mau encontro. Que Deus o ajude.

– Sim, é arriscado por estes tempos. O Salazar já bateu a bota, mas a Pide está cada vez mais assanhada. O Marcelo Caetano já abriu um pouco as portas, mas a polícia só faz o que quer. Dizem por aí que é ela quem manda. São uns fil**s da P*ta, completou Álvaro.

– Eu e tu estamos com um contrato nas mãos e também os documentos da nossa passagem à vida civil depois de três anos pelas Angolas. O nosso dever já está cumprido.

– Pois foi, mas olha que eu estive em Moçambique… Lá no norte, perto da fronteira com o Malawi, junto ao lago Niassa. Também estive lá três anos, quase completos.

– Agora começa outra vida para nós. Vamos lá ver o que por lá nos vai acontecer.

– Espero que tudo corra bem. Trabalho já não vai faltar, vamos ver é as condições de vida que nos esperam.

 

Ao chegarem a Vilar Formoso, a polícia aduaneira e a famosa «Pide», tinham instalado um controle muito apertado, pois a saída do país de muita juventude, a fugir ao serviço militar, era muito importante e então, nos vários pontos de fronteira do país, o «crivo» de controle era muito apertado. Um polícia ficava junto a cada entrada das carruagens, enquanto outros controlavam o interior. Ao chegarem ao compartimento onde viajavam Mário e Álvaro, pediram a identificação e os passaportes. Como havia pessoas lentas em os mostrar, acabaram por dar a ordem de descerem para o cais e assim «despejarem» o compartimento e parte da carruagem.

– Todos lá para fora. E para não perdermos tempo, quem tem documentos que os mostre rapidamente, disse o polícia à civil, exibindo o seu crachá, como sinal de autoridade.

– Senhor Polícia, eu e o meu colega saímos agora da tropa e temos contrato de trabalho para a Alemanha, olhe aqui se faz favor.

– Pois é, vocês estão todos a sair da tropa. Mostre-me lá isso então.

– Álvaro, tira o papel do bolso, rapaz.

– Tome Senhor Polícia, fomos desmobilizados, já lá vai quase um ano e temos contrato de trabalho e a guia de viagem que serve de passaporte.

– Está bem, entrem para o comboio e guardem esses documentos sempre à mão.

Foi só ao fim de uma hora de controle que finalmente o Chefe da estação de Vilar Formoso deu a ordem de partida do comboio, ficando alguns dos passageiros no cais sob o olhar e guarda da polícia. Para muitos deles a aventura de passagem da fronteira a salto, ficaria por ali.

A ordem de partida foi dada pelo Chefe da estação, que certamente obedecia às ordens da polícia que também seguia dentro do comboio para acabar o controle até à chegada a terras de França do comboio de emigrantes.

– Álvaro, fizemos bem em arranjarmos todos os documentos. Coitados daqueles que por lá ficaram. Quem sabe o que a Pide lhes fará?

– Não sei, mas já ouvi dizer que os metem em táxis e voltam para as terras. Mas os mais reguilas e aqueles que já são procurados, vão para a grelha. E levam lá porrada.

– Eles só procuravam os que fugiam à tropa. Aqueles mais jovens.

– Não admira, pois precisam deles para os enviarem para o Ultramar.

– Sim, é bem capaz que seja isso. Nós cá vamos. Esperar que não venham cá pedir mais os documentos.

– Não sei, eles andam por aí como cães. Devem andar a procura de ‘caça grossa’.

– Tudo isto deu-me fome. E se fossemos à merenda?

– Tens razão. Já cheira por ai a enchidos e a vinho. E isto abre o apetite, disse Mário.

 

Após sete horas de viagem em carruagem com compartimentos onde havia muita gente, as terras de Franca de St Jean de Luz e de Hendaye apareceram na manhã de setembro, no meio de uma neblina matinal que nascia após a chuva caída durante a noite.

Mudaram de comboio, como estava previsto e algumas horas depois seguiam em direção de Paris, onde de novo mudam de comboio e tomam a direção da Alemanha.

Foi numa manhã de quinta-feira que puseram os pés no cais da estação de BrunBayer, terra alemã que os acolhia como trabalhadores imigrantes vindos do sul da Europa.

 

Três anos depois, no início de 1974, Mário parte para Lyon onde tinha família e onde se sentia menos sozinho. Pequenos percalços com as namoradas, levaram-no a escolher a companhia da família. Encontrou um trabalho na agricultura, como jardineiro-paisagista e a vida começou a sorrir.

Em 1976 encontra a sua alma gémea e funda a sua própria família.

– Eu encontrei muitos portugueses por estas terras e fiz muitos amigos por Lyon, onde ainda hoje vivo, mesmo se as saudades me levam a viajar três ou quatro vezes no ano até Portugal. Mas é assim a vida de emigrante. O início foi muito duro e difícil, muitas saudades eu tive, longe da família.

Só fui a Portugal dois anos depois de ter chegado à Alemanha.

 

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