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A velha camioneta de transportes públicos da companhia “Viúva Carneiro” que fazia a linha de Viseu até à Guarda, chegava agora à entrada de Aguiar da Beira, quando o relógio central do torreão da igreja indicava quatro horas da tarde, nesta sexta-feira do mês de junho.

Cerca de uma vintena de passageiros de diferentes idades, entre eles estudantes que vinham passar o fim de semana às suas terras após uma semana de estudos no liceu de Viseu, mas também três jovens “Feijões verdes” ou “Magalas” – era assim que os chamavam aqueles que cumpriam o serviço militar obrigatório – que vinham do Regimento de infantaria 14, de Viseu, com “licença prolongada”.

– Então Manuel, ó 27, estás decidido? Amanhã vou lá ter contigo? Pergunta o José “25”.

– Claro que estou. Ainda não mudei de ideias. Podes contar comigo. Responde o João “27”.

– Olhai lá no que vos ides meter meninos. Estais a ir para uma alhada do diabo. Passais a ser desertores… vós bem sabeis disso. Avisa, a medo, o Carlos “16”.

Estes jovens soldados até tinham certo orgulho em se chamarem em simultâneo pelo número de matricula e pelo nome.

– Tu fala baixo e não te preocupes connosco. Se alguém te falar, nem pio dás, percebes? Vá lá, vai para a tua terra e calas-te bem calado ó menino Carlos.

O “16”, que era do Sintrão, subiu de novo para a camioneta com o seu saco de viagem e despediu-se dos amigos, com um aceno de mão e um sorriso de tristeza, pois nem imaginava quando os voltaria a ver.

Com ele continuou viagem também o “27”, que era das Quintas da Ribeira, perto da Ponte do Abade.

– Então aparece amanhã pelo meio-dia. Não te esqueças.

Os dois jovens de 21 anos, estavam prestes a se lançarem numa aventura que os levaria para fora do país, para terras estrangeiras, à procura de outras possibilidades de vida. Mas a principal causa era a guerra que existia nas colónias portuguesas e para onde eles estavam quase destinados a ire. Estavam a pôr-lhes muito medo e receio. Tinham feito a Recruta e a Especialização, e não faltaria muito tempo para que fossem incorporados nalguma Comissão para uma das colónias onde os conflitos bélicos estavam a decorrer.

Eram umas duas da tarde quando se encontraram perto do café do Disco, na aldeia de Ponte do Abade. Aquele era o ponto de encontro dos jovens daquelas redondezas e também das pequenas festas e da partida para vários destinos. Já vestidos à civil, tinham trocado o saco de pano verde por uma mala onde tinham posto os seus haveres, em previsão de uma viagem e de uma estadia em terras europeias. Mas ainda não se podia dar destino certo.

– Olha João, deve estar a chegar o Passador de Moimenta da Beira. Eu nem sei como ele se chama, mas falou com o meu pai e já está tudo arranjado. Não te atrapalhes.

– Espero que sim, pois o tempo avança e já estamos quase no ponto de não podermos voltar para trás. Quinta feira temos que entrar de novo no quartel em Viseu.

– Se Deus quiser, nesse dia já estamos bem longe da nossa Serra. E o José riu-se com gosto, mas um pouco nervoso.

Um senhor que inspirava confiança e que apresentava um grande bigode e uma “bela” barriga de bom bebedor, dirigiu-se ao João e ao José com um sorriso.

– Então rapazões, estamos prontos para a irmos à festa ou quê? Eu sou o António Crespo.

– Claro que sim, pode contar connosco Sr. António. Vamos lá a isso, pois parece que a festa não é perto daqui, não é Sr. António?

Falavam assim para despistarem as orelhas curiosas de algum “Bufo” que lhes viesse a estragar a vida, denunciando-os às autoridades.

Sem grandes pressas, os três saíram do café e aos poucos foram saindo da aldeia seguindo a estrada nacional e sempre vigiando o que se passava em volta deles, pois nesses tempos tinha havido casos de muitos jovens que tinham desertado dos quartéis e fugindo depois para Espanha. As noticias da “guerra” nas colónias trazia sempre notícias de mortes de soldados, mesmo se por vezes eram notícias dadas aos poucos.

O carro do Sr. António estava dissimulado atrás de umas gestas, num pequeno caminho agrícola. Sem perca de tempo, foram postos os sacos dentro da bagageira e começou a primeira etapa da viagem. Também foi nesse momento que os últimos dinheiros do contrato da “passagem” trocaram de mãos.

– Vamos ali, passar por Vila Novinha buscar mais dois que também vão à festa. Até calha em caminho e já está tudo combinado, já devem estar à nossa espera.

A viagem foi de curta demora e passado algum tempo os dois últimos passageiros estavam dentro do carro que seguia agora pela estrada em direção da Guarda.

– Oh rapazes, vocês são todos da mesma terra, vêm todos de Ponte do Abade e vamos passar uns tempos à Guarda e depois à Covilhã a ver se arranjam por lá trabalho. Se alguém nos fizer parar, é isto que dizemos todos ao mesmo tempo e da mesma maneira. Eu sou vosso amigo e conheço lá alguém que vos pode dar trabalho.

A viagem correu bem, sem imprevistos e rapidamente ultrapassaram a cidade da Guarda. A noite acabara de cair e agora o medo também crescia nos corações dos jovens “fugitivos”. O João meteu conversa com um dos últimos chegados e soube que se chamava Rui e o outro Pedro. Depois de conversarem, descobriram que o destino dos quatro seria então a França e até mesmo Paris. Esta novidade reconfortou-os um pouco e assim não se sentiam tão sozinhos.

Apareceu Vilar Formoso na escuridão da noite, com as luzes das estações de serviço, bancos e cafés. Dois quilómetros antes, o Sr. António meteu conversa e disse:

– Olhai, até aqui, tudo bem. Eu tenho por aqui uns conhecidos, mas só temos que esperar as onze horas e meia. Depois vamo-nos até à festa.

Mesmo dentro da vila de Vilar Formoso, e junto de um comércio, o Sr. António parou o carro, dirigiu-se à porta, bateu e logo abriram.

– Boa noite, venho buscar a encomenda para a festa! disse.

– Sim, está aqui tudo pronto para quinze dias de festa. Disse o interlocutor rindo de boa vontade.

Acabaram de por as duas mochilas dentro do carro e retomaram a viagem.

Fazem o caminho inverso e encontram-se em frente do edifício da Alfândega e à estrada que os levaria para o outro lado da fronteira. O Sr. António consultou o relógio e verificou que faltavam cinco minutos para a meia noite. Estava na hora, já podiam seguir em frente.

– Bom rapazes, da minha parte, a missão está quase pronta. Aqui tendes os sacos de comida para a viagem, como combinado, e eu vou lavar-vos do outro lado. A partir daí, alguém virá com um carro buscar-vos e depois… caminho até França. Acabou por explicar o Sr. António.

– Olhe lá, e então à cerca do dinheiro, como é que se passa? Perguntou timidamente o João.

– Já está tudo pago e visto com todos. Não vos atrapalheis. Vamos lá então. Outra coisa, ia-me esquecendo, tomai lá os vossos Bilhetes de identidade, os verdadeiros… Agora não podeis voltar atrás, pois sois procurados.

– Não se aflija que não vai ser tão depressa que por aqui nos veem. Pelo menos a mim!

– A mim também não. Obrigado por tudo. Graças a si conseguimos fugir à guerra, à Pide e a esses todos.

Com velocidade moderada, o carro passa em frente das guaritas da fronteira portuguesa e espanhola, onde não havia alma que vive, parecia que estava tudo ausente do seu posto de trabalho e de controle. Estava na hora de fechar a fronteira, mas minutos antes ainda dava para se passar… era o combinado.

Horas depois, os rapazes iriam avançar pela estrada espanhola n°1, em direção de Salamanca, Valadollid, Burgos e Vitória.

 

Em Espanha

A primeira caminhada começou logo depois de Fuentes, por um caminho que seguia junto à estrada nacional, depois do Sr. António os ter deixado. Carregaram os sacos da merenda e as coisas pessoais e começaram a palmilhar a estrada.

Eram quase duas horas da manhã e ao longe ouviu-se uns cães a ladrar, certamente que deram conta da presença do grupo. Mas estavam longe, nada havia a temer.

Já depois de Fuentes, um senhor espanhol levou-os de carro durante quase duzentos quilómetros e deixou-os num parque onde comeram. Ele indicou-lhes o caminho a seguir.

Ainda nesse mesmo dia, fizeram quase cinquenta quilómetros caminhado.

Um pouco de carro e um pouco a pé, a viagem ia-se fazendo. Passaram a noite junto de umas bombas de gasolina perto de um parque de camiões, dormindo no chão para não darem nas vistas.

No outro dia apareceu o carro que estava previsto, para os levar mais além. Foi já perto do meio-dia que de novo foram deixados na estrada, simplesmente com a indicação que teriam que ir sempre em frente, mas sem darem nas vistas, até um “pueblo” que se chamava Aregon de Banos.

Tinham caminhado mais uns largos quilómetros a pé, a noite estava a chegar. Pouco tempo depois de chegarem junto do bar da aldeia, vieram ter com eles e chamaram-nos para uma casa onde pernoitaram.

Ainda o dia estava a nascer e já os estavam a chamar porque o carro que os devia levar tinha chegado. Fizeram mais uma nova etapa e disseram-lhes que estavam a chegar a Vitória.

A merenda estava a chegar ao fim, tinham que economizar, foram comendo pão com pedaços de chouriço e alguma fruta selvagem que iam colhendo pelo caminho ou que compravam nas quintas.

Já se caminhava nos Pirenéus, e o senhor espanhol que até ali os tinha levado de carro, disse-lhes para seguirem sempre o caminho de Santiago de Compostela até perto de França.

No final do quarto dia, já se avistavam terras de França. A esperança e a alegria fez esquecer o cansaço e todos redobraram de motivação, até correram pelo caminho, cantando. Não puderam segurar as lágrimas de contentamento.

Já estavam a chegar a Hendaye e tomaram lugar na estação onde mostraram, mais tranquilamente os Bilhetes de Identidade. Disseram os seus destinos entregando os bilhetes de comboio comprados meses antes pelos Passadores da rede clandestina de emigração.

Estiveram quase quatro anos sem puderem ir a Portugal porque eram procurados pela Polícia como desertores.

Depois do 25 de Abril de 1974 foram amnistiados, mas para tal, tiveram de dar “muitas voltinhas”.

 

Opinião
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