Saúde: O TikTok criou os therians? Não exactamente. Como as redes sociais amplificam fenómenos que sempre existiram


Os “therians” são a novidade mais recente. Não se consideram animais, mas sentem uma conexão com eles a nível espiritual, logo, imitam o comportamento dos animais.

Vou reformular. Parecem uma novidade. Mas, na verdade, o fenómeno toca em algo muito antigo no cérebro humano: a necessidade de pertença, identidade e diferenciação. O ser humano sempre criou tribos, símbolos e formas de expressão para responder à pergunta “quem sou eu?” – sobretudo na adolescência e no início da vida adulta, fases em que o cérebro está altamente sensível à necessidade de validação, pertença e aceitação social.

Já tivemos skaters, surfistas, comunidades do anime, dreads, góticos, emos, punks, metaleiros, hippies. Hoje temos os therians. A estética muda, a base é a mesma. E a reação de susto dos adultos é sempre a mesma – isso não mudou.

Mas algo está diferente. O problema é que hoje estas identidades crescem num contexto muito diferente: redes sociais, algoritmos, validação permanente e exposição contínua. Um adolescente que antes se sentia “estranho sozinho” hoje encontra milhares de pessoas iguais em segundos. A internet e algoritmos como TikTok amplificam muito isto porque transformam grupos pequenos em comunidades enormes e muito reforçadas socialmente. E também existe aqui um efeito de performance social. O TikTok recompensa uma identidade visual forte, os nichos, a excentricidade e a pertença grupal. Quanto mais específico e reconhecível o grupo, mais engagement gera. Isto dá uma sensação de maior pertença, mas também pode amplificar comportamentos, crenças e até fragilidades psicológicas.

Temos de falar de uma coisa importante: imitar comportamentos animais, usar caudas ou andar em quatro apoios não significa automaticamente doença mental. A Psiquiatria não diagnostica excentricidade. Mas queremos perceber sempre que há sofrimento, isolamento, perda de contacto com a realidade ou incapacidade de viver o dia-a-dia.

Há adolescentes perfeitamente saudáveis a experimentar identidade e pertença através destas comunidades. Tal como houve noutras gerações pessoas a pintar o cabelo de preto, a usar correntes ou a usar as calças penduradas nos joelhos. Mas também existem casos em que estas identidades aparecem associadas a isolamento social importante, dificuldades relacionais, neurodivergência, trauma, ansiedade ou necessidade extrema de validação. E aí o foco não deve ser “proibir a tribo”, mas perceber o que se passa e como podemos ajudar.

O cérebro humano precisa de identidade. O problema começa quando deixa de conseguir existir fora dela.

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Dra. Maria Moreno

Médica psiquiatra

@mariamoreno.medicapsiquiatra

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