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A Semana da Paixão do Senhor e a da Sua ressurreição gloriosa foi dolorosamente ferida pela tristeza de vermos a nossa igreja catedral ser parcialmente destruída pelo fogo. Notre Dame ardeu, em parte.

Amanhã mesmo, Quarta-feira Santa, nela nos deveríamos reunir, envolvidos pela sua beleza, para celebrar a Missa Crismal com a bênção e consagração dos Óleos Santos (a usar nos sacramentos celebrados em toda a diocese a partir desta Páscoa) e os sacerdotes deveriam fazer a renovação dos seus compromissos de ordenação.

A catedral, onde o Bispo – sucessor dos apóstolos tem a sua cátedra (cadeira) para a partir dela ensinar, governar e santificar a porção do Povo de Deus que lhe está confiada, a diocese – é a igreja-mãe de todas as igrejas existentes no território diocesano. Este santuário, como todas as outras igrejas (seja qual for a sua dimensão e relevância história ou artística) perdeu a sua mãe. Mesmo que a estrutura tenha sobrevivido, durante alguns anos a catedral estará inacessível para a sua função cultual e espiritual, além da cultural e artística.

Ainda este domingo, respondendo à critica dos fariseus que pediam a Jesus para mandar calar os que O aclamavam como Rei, o Senhor disse: «Se eles se calarem, as pedras gritarão» (Lc 19, 40).

O grande escritor inglês, G.K. Chesterton, após a sua conversão ao catolicismo, que esta palavra de Jesus se realizou nas catedrais góticas: elas são – na sua forma, altura e beleza – as pedras que se ergueram do solo para aclamar e louvar o nome d’Aquele que veio para nos salvar. As pedras dos edifícios cristãos (como todo o objeto sagrado e cultual) nunca são apenas pedras ou metal ou tecido. Elas são o sinal visível da presença do Filho de Deus feito Homem que, ao incarnar, assumiu a nossa carne humana e toca a matéria do mundo, para se revelar e estar próximo de nós. Numa igreja, numa imagem, numa alfaia litúrgica podemos reconhecer o Senhor, a Ele que sendo Espírito e Vida, é infinitamente maior e mais majestoso do que tudo o que existe, escolheu confinar-se e conter em tão pouco…

Também neste trágico evento vemos como nada de nosso é definitivo. Vivemos num mundo provisório que só em Deus poderá ser para sempre: para aí nos chama Jesus ressuscitado.

O nosso coração está em cinzas, mas a nossa fé e esperança no Senhor crucificado estão intactas.

Vamos celebrar esta Páscoa, com renovados sentimentos de confiança. Se «Notre Dame» foi profundamente ferida e desfigurada pelas chamas, associemo-nos espiritualmente a Nossa Senhora aos pés da cruz do Senhor. Mãe de dores, Ela compreende as nossas. Mãe de lágrimas, Ela pode enxugar as nossas. Trespassada na alma por uma espada de sofrimento, Ela pode reconfortar a nossa própria alma ferida.

Sinal de que ela já trabalha connosco é a unidade gerada à volta deste trágico acontecimento: não apenas os católicos e representantes de outras comunidades religiosas, mas também ateus, agnósticos, políticos por vezes tão críticos da Igreja e e contrários aos seus valores e princípios, e muitas outras pessoas pelas mais diversas razões manifestaram pesar, tristeza e emoção dando conta como também elas a seu modo, foram atingidas. Talvez que alguns possam ser igualmente tocados pela graça de Deus, como Paul Claudel que, entrando na catedral de Notre Dame, durante a oração de Vésperas no Natal, se converteu.

E que esta união possa, de algum modo, suavizar as divisões profundas e recentes entre franceses.

Um titulo de jornal de hoje fazia manchete: « Notre Dame des Larmes ». Sim, Nossa Senhora das Lágrimas… Mas não chora sozinha.

 

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